Vestiu-se toda de vermelho. O vestido, de tão cingido ao corpo, parecia a sua própria pele. Na boca carnuda, cheia de silêncios, o batôn era carmim. Nas longas unhas das mãos, o mesmo tom de vermelho. No dedo, um anel de falsos rubis, igual ao colar e aos brincos. Calçava os sapatos de todas as noites, já gastos e conhecedores de todas as pedras das calçadas. Eram de verniz escarlate, já com pouco brilho. Foi assim, toda de vermelho, para a rua. Percorreu as calçadas. As mesmas de todas as noites, como os sapatos. Desertas estavam. Encaminhou-se para a esquina, à qual chamava de sua, que dava para o beco dos dancings e dos bares. Todos estavam fechados e os anúncios de néon apagados. Na esquina oposta, o mendigo que sempre, ao vê-la passar, em gesto de cumprimento levava a mão ao chapéu, dormia ao relento. Um gato miou, mas não o viu. Ouviu, muito ao longe, o repicar de um sino. Contou doze badaladas que a fizeram pensar se alguma vez teria ela ido a uma Missa do Galo. Talvez na infância, mas isso tinha sido há muito tempo ...Se até à meia-noite não tinha aparecido cliente algum era certeza de que também não viria mais ninguém. Já sabia que naquela noite seria assim, sem permuta, sem negócio, e, ao atravessar a rua de regresso a casa, maldisse a sua insistência em sair para trabalhar em noites de Natal. Visto-me de vermelho e venho para a rua passear tudo o que de negro tenho dentro de mim, lastimou-se. Ao entrar em seu pequeno e lúgubre apartamento, olhou-se ao espelho, de alto a baixo, e não gostou do que viu. Quis virar-se do avesso, vestir-se de negro e reacender, em seu âmago, o rubro das paixões há muito mortas. Não conseguiu. No canto da sala escura as luzinhas ainda piscavam na árvore de Natal. Eram brancas.
23dezembro2006
(Desconheço o autor da foto)
Talvez publique também aqui: http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/
O Natal é para as famílias, daí a existência de poucos clientes.
ResponderExcluirMuito bom.
Muito bom.
ResponderExcluirMuito detalhado e descritivo.
Bom texto.
ResponderExcluirMais uma para quem o Natal não traz grandes recordações. Se ia trabalhar era porque estáva só, não tinha familia. Este dia é de muita angustia para muita gente e por variadissimos motivos.
ResponderExcluirMuito bonito e triste.
ResponderExcluirEla devia era de ter dado uma "prenda" ao sem-abrigo. Sempre se entretinham os dois. =p
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Gostei bastante deste teu texto. Fez-me lembrar os meus :)
ResponderExcluirCumprimentos.
(...)diria até, encantador... Muito bonito e... realista!
ResponderExcluirMuito bonito. Mesmo as putas de vermelho (especialmente as de vermelho) deviam ter direito a uma conmsoada mais digna. Familia, bolo rei, e quiça até Missa do Galo.
ResponderExcluirBeijinho
Bem esmiuçada a questão.
ResponderExcluirVestir de vermelho pelo Natal poderia significar alguma coisa de boa, no entanto vê-se que ninguem acredita no pai Natal!
Lindíssimo o texto, especialmente isto "Quis virar-se do avesso, vestir-se de negro e reacender, em seu âmago, o rubro das paixões há muito mortas. Não conseguiu".
ResponderExcluirMt bom. Parabéns.