Este não é um dos de Cherbourg, tão pouco tem impresso nome de marca famosa. É apenas mais um, e todo roto, quase esfacelado. Assim deveriam ser todos eles, sempre que chovesse poesia, para que não houvesse jeito de não sermos por ela tocados. Quem disse que o guarda chuva é objecto inútil? É nada, mesmo que esteja roto.
Era noite e fui por aí à toa,
Como é meu hábito.
Tinha preso num blusão
acostumado às passeatas para lado nenhum,
um daqueles chapéus de chuva
que não tapam chuva nenhuma
nem destapam...
Tinha um cabo grande
Daqueles de madeira trabalhada
Que já quase não há,
mas o pano estava roto
nem os pingos grossos enganava...
Que a chuva vem quando calha
molha e pinga qualquer bem falante
ou canalha
mas é molhada
penetra onde não devia
humedece o que não se queria
adensando-se nos velhos panos
fragilmente encostados às varetas
que são o seu suporte de conjunto.
É pior quando ela vem do lado do vento
Sem alento...
Aí não há sustento
Nem um sussuro dum lamento
Nem um raio dum chapéu
a faz deixar o céu!!!
AP 10/12/05
talvez este te faça recordar o quanro errada estavas..., escreve sempre e bom Natal! AP 16/12/05
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-Os meus poemas-
Rasgam-me a carne
e nascem, como crianças,
lavados em lágrimas, suor e sangue,
os meus poemas,
tão frágeis e indefesos!
Separo-os de mim,
corto-lhes os cordões umbilicais,
deles serão os gritos que são meus,
suas, as minhas lágrimas em caudais
e o meu sangue.
Vejo-os crescer e partir,
itinirantes,
enormes e tão pequenos,
os singelos e os arrogantes,
os infantis e os obscenos.
Germinaram em meu âmago,
e mesmo afastados, sei-os meus;
se parir é muito mais que padecimento,
é sublime acto de amor incontido,
quisera eu, por um só momento,
sem dor nem sofrimento, tê-los parido.
antonia
7outubro2003