O bistrot estava quase deserto. Quase escuro. A música era suave e com destreza e harmonia dos dedos do pianista o som de As time goes by fugia e misturava-se ao tilintar de louças e às vozes quase em surdina dos empregados atrás do balcão, ocupados com os últimos afazeres daquela noite.O homem que entrou sentiu-se bem naquele ambiente aquecido. Estava frio lá fora; tinha chovido muito, as ruas estavam molhadas, impregnadas da pacatez das segundas-feiras a horas tardias, e o vento ainda teimava em dobrar as esquinas. Embora não fosse grande o espaço, nem arrojada a sua decoração, era de bom gosto e aconchegante, mesmo estando quase vazio. Sentada na mesa de canto, perto da janela, uma mulher olhava a rua como se, prisioneira em cela escura, quisesse fugir e não pudesse. O homem sentou-se e olhou-a. Pele muito branca, cabelos pretos amarrados por uma fita de veludo a emoldurarem um rosto que ora era belo e exuberante, ora amargurado e desprovido de expressão, o que não a faziam, por isso, menos intrigante e prazerosa. Olhou-a de frente, encarou-a e deixou que o seu olhar se perdesse no dela. O tempo tinha passado mas o olhar daquela mulher era como sempre tivera sido: inquietante e misterioso. Agarrou-lhe as mãos e sentiu-lhes o calor. Eram aquelas mãos as que lhe tinham dado tudo e, por vezes, lhe tirado o muito pouco que tinha tido. Mesmo assim gostava de senti-las, de segurá-las, embora se apercebesse de que já não eram tão lisas e macias como antes. Sentiu-lhes certas asperezas. Contudo, ainda eram lindas mãos, as mais bonitas que já houvera visto e tido entre as suas. Era ela, não tinha dúvidas.
Sempre é tempo para reencontros, disse o homem. Tenho procurado tanto por ti. Certa vez, no burburinho da cidade pensei ter-te reencontrado. Não eras tu. Se eras não me viste. Nestes últimos dias tenho andado reflexivo e na minha mente têm desfilado, como slides, as imagens das nossas manhãs, quando, com pernas de mocidade, corríamos, lado a lado, pelas praias e tu, sempre com um sorriso, tiravas do teu bolso, a cada dia, uma fatia de sol e dizias-me: "se to der por inteiro poderás queimar-te".
A mulher escutava-o, com atenção, sem desviar o seu do olhar dele.
Não tenho sido capaz de esquecer todas as nossas tardes que ficaram lá para trás, no tempo - tínhamos um mar pintado de vermelho quando elas estavam prestes a partir e tu sempre dizias: "guarda bem estas imagens que um dia querê-las-às ver e não mais as terás". E das nossas noites, lembras-te? Eram quase sempre de festa. De tanta música. De tantos luares. Mesmo as silenciosas e tristes, quando eu me recolhia, sozinho, eram felizes porque sabia-te minha. Só minha. O meu maior prazer era tentar desvendar os teus segredos, um após outro, e a cada um que ia conhecendo, infinidades de outros havia por descobrir. Terei desistido dessa busca sem perceber? E depois, o que nos aconteceu? O que fizemos de nossos dias tão eufóricos? Acinzentaram-se eles e nós? Por que nos tornamos assim tão distantes, permanentemente vestidos desta aridez tão aflita, tão alheios um ao outro?
Continuava ela, calada e inerte, a ouvi-lo.
Responder-me-às, acredito. Agora que nos reencontrámos, agora que tens as minhas mãos novamente nas tuas, agora que sabes que és o meu maior amor, a minha infinita paixão. Preciso do teu abraço forte, do teu beijo ardente. Preciso de ti. Para ter a certeza que és tu e que te reencontrei, diz-me o teu nome.
A mulher levantou-se de braços prontos para o abraço, sorriu e respondeu-lhe:
- Sou eu, a que buscavas. Chamo-me Vida.
Tenho procurado tanto por ti.
ResponderExcluirFantástica surpresa, esta, a de encontrar este espaço cheio de belos textos.
Gostei muito deste teu texto, apesar de sentir mais o amor do que a paixão nele.
ResponderExcluirE tantos passam por Ela e mesma assim não percebem a grandeza desse Encontro.
ResponderExcluirLinda participação.
Um encontro que mudou tudo... Um encontro/reencontro.
ResponderExcluirbjs*