
Caríssimos,
Mais um e já são tantos! Tantos Natais passados e tudo leva a crer que este será igualzinho, sem tirar nem pôr, a todos aqueles que já vivenciei e que qualifico de verdadeira tortura. Para ser mais honesto, digo mesmo que é uma crueldade, um desrespeito a um cidadão que, como eu, vive a sua terceira-idade. Convenhamos, respeito é bom, eu gosto e exijo. As cartas que todos vocês me têm enviado e milhões de outras que ainda receberei até o dia vinte e quatro, vão-se acumulando e já nem espaço físico tenho para guardá-las. Se fosse um homem ecologicamente correcto obviamente que, depois de lê-las, colocá-las-ia naquelas sacolas coloridas para que fossem recicladas. Pouparia milhares de árvores. Deixá-las-ia verdejantes nas florestas por muitos e muitos mais anos. Mas, digam-me, além do trabalhão que isso daria, ficaria eu sem papel para o ano vindouro? Como bem sabem vocês, ou como deveriam saber, os meus proventos são irrisórios. Os preços dos produtos de higiéne pessoal são exorbitantes e, embora não gaste nada com lâminas, espumas e loções para barba, tenho estas gaforinas que requerem tratamento esmerado e diário. Assim, lá vou economizando no papel. Faço mal? Voltando à correspondência recebida: escusado será dizer que não me dou ao trabalho de abri-la e, por consequência, nem a leio. Não me levem a mal se assim procedo. Para isso tenho uma explicação. Já dizia a minha avó que quem pede, pede sempre; quem dá, nem sempre pode dar. E, vocês, pedintes eméritos, pedem mundos e fundos. São experts na arte de pedir e não se contentam com pouco. Há anos atrás, quando ainda levava a sério a minha profissão, lia atentamente todas as cartas. Em nenhuma delas encontrei um pedido de Saúde, Paz, Amor, Compreensão, Esperança. Ai de mim se eu tivesse caído na esparrela. Queriam carros caríssimos, mansões em condomínios fechados, viagens para paragens paradisíacas, jóias, casacos de peles (e depois o ecologicamente incorrecto sou eu, não é?), enfim, queriam, queriam tudo e era um pedir sem fim. Tive de pôr cobro a isso com um popular e sonoro já dei para esse peditório. Também admito, os tempos eram outros e a vida era muito mais fácil de ser vivida. Ponham-se, vocês que me escrevem, na minha situação: um velhote como eu, com esta pança que me dificulta a locomoção, a ter de percorrer, com um saco às costas, centenas de centros comerciais em busca dos vossos desejos. Isto sem contar com o absurdo gasto com o estacionamento da carroça e renas, com a histeria que por lá reina nesta quadra, os encontrões, as cotoveladas, os maus modos dos apressados, o mau humor dos vendedores, o stress dos arrependidos pela compra mal feita, cara e desnecessária e, principalmente, com todas aquelas crianças que, ao me verem, querem tocar-me para terem a certeza de que existo e sou real. Ora poupem-me e tenham santa paciência. Comigo não contem para tamanha desumanidade.
Como vos disse, os tempos que correm são outros, muito mais difíceis e diferentes daqueles em que eu era um menino. Eu quase não existia e era pouco mencionado no Natal. Tenho para mim que eu sou mais um produto americanizado, tipo Coca-Cola ou coisa que o valha. Nos Natais da minha infância era o Menino Jesus que nos deixava uma prenda no sapato, debaixo da chaminé da cozinha. Isso sim, tinha encanto. Mas foi há tanto tempo...
Mas, já que me contrataram para esta árdua e mal paga profissão, a qual aceitei, para não ser tão relapso, desde já vos agradeço todas as cartas enviadas e, já que o meu presente não terão, aceitem os meus desejos de muita Saúde, Paz e Amor. Como diz o outro, o resto vem por acréscimo.
Assinado: Pai Natal
(Também aqui: Fábrica de Letras)
Como vos disse, os tempos que correm são outros, muito mais difíceis e diferentes daqueles em que eu era um menino. Eu quase não existia e era pouco mencionado no Natal. Tenho para mim que eu sou mais um produto americanizado, tipo Coca-Cola ou coisa que o valha. Nos Natais da minha infância era o Menino Jesus que nos deixava uma prenda no sapato, debaixo da chaminé da cozinha. Isso sim, tinha encanto. Mas foi há tanto tempo...
Mas, já que me contrataram para esta árdua e mal paga profissão, a qual aceitei, para não ser tão relapso, desde já vos agradeço todas as cartas enviadas e, já que o meu presente não terão, aceitem os meus desejos de muita Saúde, Paz e Amor. Como diz o outro, o resto vem por acréscimo.
Assinado: Pai Natal
(Também aqui: Fábrica de Letras)
Adorei este teu post, mais um que vinca a minha ideia do Natal.
ResponderExcluirBeijinhos
Muito bom [aliás, sempre que aqui venho, gosto muito]! Estava a ver que o Pai Natal nunca mais reclamava!
ResponderExcluirBeijinhos
Vá... não sejas preguiçoso! =D
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