segunda-feira, dezembro 07, 2009

Sonho de uma noite de Natal

Eleonora vivia há muitos anos na única casa solarenga, situada na parte mais alta daquela pequena vila, mais propriamente na Rua da Alegria, número 14. Coubera-lhe por herança, bem como muitas outras propriedades na região que, com afinco, administrava. Dos quarenta já há muito havia passado mas continuava a ser mulher de muitos talentos sem, no entanto, profissionalmente, ter levado nenhum adiante. Era exímia pianista, pintava nas horas vagas e sempre dizia que, além da música e das viagens, uma de suas grandes paixões era a gastronomia. Encantavam-na as descobertas de novos sabores e a criação de novos e exóticos pratos. Morava sozinha, nunca havia casado, mas era mulher de grandes amores. Uns duradouros, outros fugazes, tais como as amizades. Quando não estava em viagem, naquela casa não existiam dias sossegados. Era uma constante azáfama, um entrar-e-sair de gente, um corre-corre dos empregados. As noites sim, eram calmas, mesmo aquelas em que Eleonora recebia, para requintados jantares, amigos vindos de longe. Quando não tinha convidados e depois que os empregados se iam, sentava-se ao piano e tocava. Tocava para ninguém. Tocava para ela e para o seu gato que, deitado sobre o piano, parecia conhecedor de cada nota musical. Dera-lhe o nome de Gato, aliás, nome dado a todos os gatos que, desde a infância, tivera.

Com a proximidade do Natal Eleonora começou a pensar em como seria o daquele ano. Há quantos anos não passava ela um Natal naquela casa? Já havia perdido a conta, pois eram muitos. Aquele ano seria diferente. Tinha um sonho de fazer, em sua casa, uma ceia tradicional de Natal, mas não para velhos amigos ou, porventura, para algum amor antigo, ou mesmo novo que fosse. Teria o privilégio de ver presentes todos aqueles que há longo tempo para ela trabalhavam. Seriam eles, as suas famílias, o Gato e ela.

Como sempre, Eleonora não só corria atrás de seus sonhos, como os agarrava e intensa e vorazmente dava-lhes vida. Foi o que aconteceu naquele ano. Comunicou a todos os seus empregados os planos e a decisão tomada e três dias antes da festa dispensou-os. Tudo seria preparado e feito por ela especialmente para eles. Às melhores lojas da capital encomendou as prendas: brinquedos para as crianças, jóias para as mulheres, relógios para os homens e um cheque vultoso para cada família. E, sem tardança, começou a preparar e a confeccionar os pratos. A bacalhoada, os perus assados, os leitões e as sobremesas que ela tão bem sabia fazer. A aletria, o arroz-doce, o bolo-rei, sem que lhe faltasse a prenda e a fava, as rabanadas, as tortas de amêndoas, os bolos pretos de nozes e, o que ela mais gostava de fazer e de comer: os sonhos. Tudo seria servido na sala de jantar principal; a mesa seria posta com a melhor toalha de linho branco, os mais finos cristais e porcelanas e os talhares, os de prata.

Eleonora tocou para as crianças que dançaram numa alegria incontida. Manuela, a velha cozinheira, não acreditava que a sua menina tivesse sido capaz de fazer tudo aquilo. A lavadeira, Maria Alice, vangloriou-se com a brancura da toalha. Se outro nome se pudesse dar àquela noite de Natal, outro não seria se não o de Felicidade. Altas horas, quando todos se retiraram, Eleonora percebeu que estava exausta. Exausta e feliz. Feliz e com fome, pois com tanta emoção mal conseguira comer. Na travessa dos sonhos, apenas um, o último. O da cerimónia, quiçá. Pô-lo num pratinho, com muita calda, e com ele na mão sentou-se no sofá. Antes de comê-lo recordou Natais passados. Um em Paris, outro na cidade do México, um numa cidadezinha inglesa, um outro em Viena, ocasião em que conhecera um dos grandes amores de sua vida, o do ano anterior em Praga ..... e de lembrança em lembrança, dormitou ...

Quando Eleonora acordou, ao seu lado o Gato lambia os longos bigodes e, de soslaio, olhava para o pratinho que estava vazio.



Também para: http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/

5 comentários:

  1. Que lindo sonho de natal... Parabéns!!

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  2. Se todos os patrões fizessem isso de vez em quando... isso é que era. Isso é que era! :p

    Bonito conto. ;)


    *

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  3. O meu patrão não faz bem isso... Mas todos os anos dá uma festa de Natal para os filhos dos funcionários... Com direito a Pai Natal e prendas e tudo aquilo de que as crianças tanto gostam... A minha filha já está em pulgas... a festa "do meu patrão" aproxima-se...!

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  4. Era bom que fosse assim!Que os que mais têm, se deixassem de blá blá blá e fizessem de facto alguma coisa.
    Bem bonito este conto de Natal!
    Boas Festas

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  5. Um verdadeiro conto de natal onde não falta a solidariedade com o pessoal que está a seu lado o ano inteiro. Foi uma óptima maneira de reconhecer o serviço prestado. Um exemplo a seguir pelos belmiros e afins que por este país se passeiam. Que tal dar em vez de tirar?

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