
Agrupei os dois temas sugeridos até agora pela Fábrica de Letras (http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/) e sobre eles fiz isto:
O negro exílio e o Natal branco
O mês era o último daquele ano de mil novecentos e sessenta e três. Vinte e quatro era o dia. Sozinho, sentado no banco da praça, o homem fumava um cigarro. O relógio da torre da igreja informava que faltavam quinze minutos para a meia-noite. Há exactamente um ano, naquele mesmo banco, estivera ele sentado. Igualmente só. O frio e o vento intensificaram-se e o homem resolveu ir-se embora. Conhecia muito bem aquela praça, daquela cidade que não era sua. Atravessou-a, em diagonal, passou perto da árvore de natal iluminada por luzes brancas, sem para ela olhar. Levava os olhos postos no chão. Naquele chão que, apesar de não ser seu, da sua história já fazia parte. À entrada da pensão onde morava cruzou-se com o hóspede do primeiro andar, um músico de Praga, que, como sempre, fingiu não o ver. Ao contrário, a dona da pensão, recebeu-o com um sorriso, desejou-lhe um joyeux Noël e acrescentou, com ar de desânimo: pas de nouvelles. O homem agradeceu, retribuiu, e subiu até à sua mansarde que tinha tanto de modesta e acanhada como de quente. Sentiu-se bem. Não gostava de frio e quanto mais frio sentia mais relembrava os dias de sol ardente e de calor contínuo que havia deixado para trás. Não só eles, mas tudo. Família, amigos, amores. Bem-estar, reconhecimento profissional. Reavê-los-ia algum dia? Decidiu que naquela noite não escreveria. Talvez o fizesse pela madrugada. Queria ouvir música, a que sempre escutava, por falta de outros discos. Ou Piaf ou Brel. Optou pelo segundo e aquela voz, sua companheira de tantas e tantas noites, encheu o seu exíguo quarto:
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
(...)
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
(...)
Não queria esquecer nada nem ninguém. As recordações eram o único elo com tudo e todos que abandonara. Apagou a luz e sentiu sobre si o peso da escuridão e o peso do esquecimento, aos quais já se habituara. Há anos que carregava o peso e o negrume do seu exílio. Da janela de sua mansarda avistava a praça onde há alguns momentos estivera. Nevava. Ali, o Natal que não tinha, era branco.
Fantástico. Muito bem escrito. Gostei imenso. Preto & Brance e Natal... Afinal, através das letras e da nossa imaginação, é possível juntar todas as cores e retirá-las ao mesmo tempo consagrando-as num fundo tão colorido e quente como o Natal.
ResponderExcluirMuito bem escrito. E que bela escolha o Brel!!!
ResponderExcluirBeijinho
Muito bonito e triste.
ResponderExcluirParece que o Natal é assim. Sem meios termos.
*
Eu também gosto do texto e da música.
ResponderExcluirMais um Natal vivido na solidão. Os motivos podem ser diferentes mas a solidão, nesta noite, dói sempre da mesma maneira e é profunda.
ResponderExcluirTexto muito bonito, também triste. Porque é que o Natal nos faz escrever sobre tristeza e solidão?
ResponderExcluirBjs