quinta-feira, dezembro 17, 2009

A prenda

Gostava Mariana daquele cheiro da massa lêveda e do aroma adocicado das frutas que iam mansamente impregnando a sua casa. A esse tanto gostar dava-lhe ela o nome de Reminiscências de Infância. Quando, em criança, os mesmos cheiros se espalhavam pela casa, acompanhava ela o trabalho sem fim de sua avó, mãe e tias que, sem cansaços, apregoavam: o cheiro a Natal está no ar. Eram, aqueles, os natais de sua infância, sempre fartos em gente, em comezainas e, principalmente, em simplicidade e alegria.

Mesmo passados tantos Dezembros, acumuladas tantas e tão sentidas ausências, tentava Mariana manter a antiga tradição familiar de reunir, para a ceia de Natal, familiares e amigos, porém introduzindo-lhe algumas modificações, já que a sua própria vida também se modificara. A cargo dela ficara a feitura do Bolo-Rei. Quem fosse para a ceia levaria um prato salgado, um vinho ou um doce, tudo previamente combinado. No ritual das ofertas, acto meramente simbólico, as prendas queriam-se das mais simples possíveis, de preferência feitas de própria mão, que cada um depositava numa enorme arca de madeira, tendo apenas o cuidado de saber qual a que trouxera para não vir a escolhê-la.

Naquele Natal, diferente dos demais, só o cheiro a massa lêveda e o aroma doce das frutas permaneciam inalterados. A massa havia crescido tanto quanto a ansiedade de Mariana em ver o Bolo-Rei pronto e enfeitado. A fava já lá estava, mesmo sabendo que os bolos dos anos seguintes estariam em suas mãos. Faltava-lhe a prenda. Como não pensara nisso antes? O tempo urgia, o bolo tinha de ir para o forno imediatamente. Que miniatura escolheria? Um combóio feito de luar? Quiçá ....

Mariana aquietou-se. O bolo estava pronto, enfeitado, com neve de açúcar e cheirava a Natal. Tinha fava. Tinha prenda.

A tradição familiar mantivera-se. Sala cheia, tristezas esquecidas ainda que por uma só noite, ausências lembradas, mesa farta, simplicidade servida por inteiro e Bolo-Rei às fatias. A António coube a fatia de bolo com a prenda. Fez-se silêncio ante a curiosidade de todos. Um papel-prata envolvia um outro, com dizeres, que António leu em voz alta:


Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher

Quando um Homem Quiser, José Carlos Ary dos Santos


Mariana guardou em sua memória todos os cheiros de Natais passados, independentemente do mês em que aconteceram ...
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Escrito, especialmente, para António Parracho, que me ofereceu todos os cheiros das palavras e a prenda imensa do gosto de juntar letras.


Enviada esta prenda também para a Fábrica de Letras

Um comentário:

  1. Quotidiano muito bem escrito, com muita imaginação e narra um Natal que todos aqueles que vêm nesta quadra uma quadra de amor aprovam. Excelente, até a prenda é de uma imaginação suprema.

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