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| Fotografia de H. Armstrong Roberts |
Quase sempre à mesma hora uns fiapos de luz vinham e faziam os seus dias, naquela grossa parede de pedra escura, mais claros e quentes. Dias que eram - apenas e tão somente - pequenos riscos que ali gravara, um após outro, às centenas, para ter a exacta noção do tempo. Do seu tempo. A certa altura desistira de gravar os seus dias-riscos e abandonara, definitivamente, a construção do seu calendário de pedra. Dias de pedra já os tinha e bastantes. Os vividos, os quais nenhum fiapo de luz fizera menos escuros e crueis, e os que ainda teria para viver, que não sabia quantos ainda seriam.
Ouviu o barulho da chave na fechadura da portinhola, na grade, por onde, diariamente, lhe era entregue o pão duro e a sopa fria, rala e com acentuado sabor a humilhação e a injustiça. Eram instantes tensos esses em que não se sabia só. Assim mesmo, nessa manhã, com ousadia, arriscou uma pergunta ao seu algoz: Em que data estamos? Ouviu o som cavo da voz que lhe respondeu que o Natal fora há três dias e que, portanto, o ano de setenta e três estava a terminar, ao que acrescentou, com rudeza e cólera, como se se tivesse arrependido de ter falado: Agora cale-te, bastardo nojento.
Por tantas sevícias tinha passado mas nenhuma delas tão insuportável como as causadas em sua alma. Eram feridas abertas que jamais cicatrizariam e não encontrava lenimento para a humilhação, para o ultraje, para o escarro na cara. Nesses momentos de revolta e de desespero era à grade que se agarrava, como se tivesse forças para destruí-la. Ao sentir-lhe o ferro frio e a solidez de suas barras, reflectia sobre o significado das palavras de seus pais quando, em menino, lhes perguntava porque não celebravam eles o Natal. Filho, crescerás e saberás que o Natal é invenção do Homem. Deus nunca nasceu. Se ele existisse o mundo seria menos injusto. Acredita antes no teu sonho.
Ainda queria crer no seu sonho embora fosse uma tortura constante a sua existência atrás daquela sinistra grade. Muitas eram as noites em que ela se desprendia, avançava em sua direcção, arremessava-o com violência contra a parede e com todo o peso do seu ferro começava a esmagá-lo lentamente. Sempre o mesmo pesadelo do qual acordava encharcado em suor, trémulo e febril. Depois vinha o frio. Ali, sobre o catre, em absoluta escuridão, encolhia-se, chorava e sentia medo. Muito medo. Medo da morte e medo da vida.
Um dia, chegou Abril. Mais alguns dias e levantaram-lhe a grade para que saísse. Depois mais uma, mais outra e mais umas tantas e viu-se a caminhar numa praia. Atrás dele ficara a cela escura, o calendário de pedra, a fome, os algozes, a tortura, o forte...
O sol ia alto e a brisa era primaveril. Gostava de apreciar o mar e em toda a sua vida poucas vezes o tinha visto. Mesmo encantado com a linda paisagem, não queria ali permanecer nem mais alguns minutos. Tinha pressa em chegar à aridez das terras do Sul, de onde o haviam arrancado à força já nem ele sabia há quanto tempo. Caminhou pela areia até alcançar a estrada, onde se deparou com alguns carros estacionados. Eram modelos novos e muito diferentes dos de então. Mirou-se no retrovisor de um daqueles carros. Teve um choque ao ver-se. Barba e cabelos brancos em desalinho, olhos mortiços e fundos, rosto magro, pele com sulcos profundos, marcas indeléveis de todo o martírio que lhe haviam infligido. Não quis mais olhar-se. Toda a sua velhice não cabia em tal pedacinho de espelho.
Continuou a sua caminhada e não ia sozinho. Levava, em sua alma, a esperança e a beleza do seu sonho não mutilado e, em suas mãos, a sua recém-nascida liberdade.
(02janeiro2010)
(02janeiro2010)

Parabéns.
ResponderExcluirGostei muito deste conto.
Muito lindo e bem profundo teu texto.Excelente participação!abraços,chica
ResponderExcluirMuito interessante este conto. Parabéns.
ResponderExcluirInteressantissimo, bem planeado e nota-se a facilidade com que ligaste os vários temas. Uma ideia brilhante
ResponderExcluirmuito bom, concordo com a Brown, ainda que assim vás estar dois meses sem participar :)
ResponderExcluirBem escrito, muito bem construído, parabéns.
ResponderExcluirUm conto da vida real. Uma estória da história de tantos seres. Fantástico. Simplesmente Fantástico. Parabéns!
ResponderExcluirUm sonho de conto. Maravilha.
ResponderExcluirTeu cunhado.