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| Pintura de Santiago Carbonell |
Soubesse eu
ao poema-vida dar garrida cor
despi-lo de todo o breu
extrair-lhe toda a dor;
soubesse eu apagar
todo o vestígio de desesperança
e nele ser incapaz de rasurar
a palavra confiança
para atravessá-lo como se fosse ponte
sobre águas perfumadas
sobre arcos de horizonte
sem alçapões nem ciladas;
soubesse eu por um momento
escrever um poema doce
sem percalço nem tormento
ainda que mais não fosse
p’ra dizer do frescor das manhãs
e do eterno marulhar
das ondas guardiãs
dos infindáveis segredos do mar ...
Soubesse eu
esquecer o pesadelo
e escrever um poema tão só meu
sem a frieza do gelo
que não dissesse das horas vazias
do querer mutilado
das noites que não tocam os dias
nem do sonho brutalmente assassinado ...
(15maio2004)

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