quarta-feira, fevereiro 03, 2010

O solar

Escultura de Paige Bradley




Para a Fábrica de Letras e, como sempre, agrupando dois temas: o anterior (Beleza) e o presente (Velhice).



No frontispício, apesar da ruína em que se encontra, ainda se pode ver a data de construção do solar: MCMXIX. Não é o seu estado decadente de agora que lhe tira a beleza e a  sumptuosidade. Sabe-se que, alguns meses após o término das obras, para lá se mudaram os seus proprietários, um casal culto, de grandes posses e muitos filhos. Enquanto o mais velho já frenquentava a universidade, o mais novo aprendia os primeiros passos nas largas e bem cuidadas alamedas que circundavam o solar. E, entre um e outro havia mais oito, meninas e meninos. Maria Antónia era uma delas, à época com dez anos de idade. De todos era a que mais amava o solar. Dizia que jamais o abandonaria, acontecesse o que acontecesse. Conhecia-lhe bem os meandros, passava horas ora embrenhada no roseiral, ora sentada na fonte, perto da estátua,  a ver e a ouvir os passarinhos. Tinha especial interesse pela estufa onde existiam espécies raras de orquídeas tratadas por quem desse ofício era especialista. Época feliz aquela, em que a vida fluía sem percalços. Manhãs preenchidas pela algazarra da petizada, tardes amenas de lanches fartos no alpendre e noites, muitas delas, de animados e elegantes saraus em que o solar se iluminava quase até ao amanhecer.

Algumas décadas depois o solar não era o mesmo. Fechara-se. Portas e janelas constantemente cerradas como se não se quisesse deixar fugir a dor, a tragédia e o sofrimento que agora o habitava e que habitava os poucos que  nele permaneceram e que aos poucos também se foram. Maria Antónia não quis ir. Ficou e ficou só. Deambulava, em noites de chuva, pelas alamedas e, em manhãs de sol, corria descalça, desgrenhada e seminua pelo roseiral seco e desfeito. Muitos a ouviram cantar junto à fonte, que água já não tinha.  Conversava amiúde com a estátua e contava-lhe das tragédias acontecidas além das paredes do solar e do cheiro de morte  que por lá existia.  Raras não eram as vezes em que, por entre as grades do alto portão, convidava quem passasse a visitar a sua estufa de orquídeas.  Da estufa, apenas  alguns vidros haviam restado.

Numa tarde cinzenta vieram buscar Maria Antónia. Já não tinha energia para resistir. Rejeitou a camisa-de-forças e antes de entrar no carro do serviço médico virou-se para o solar e gritou: hei-de voltar, ainda sou uma menina. Não era. Ainda se ouviram os seus gritos: hei-de voltar, hei-de voltar .... Não voltou.

O solar está, hoje, em ruínas. Vidraças quebradas e, por entre as altas janelas que batem sem parar  quando há ventania, ainda se vêem pedaços de cortinados. Ao seu redor a vegetação cresceu desordenadamente. De noite piam as corujas que habitam nos vãos do que outrora foi o telhado. Uma grossa  corrente de ferro  com cadeados fecha o imponente e alto portão onde a tabuleta anuncia um Vende-se. Apesar de toda a sua velhice e ruína, o solar ainda é majestoso.

Junto à fonte coberta de lodo e musgo, entre a vegetação, permanece a estátua de uma mulher. Intacta. Bela e jovem. Beleza feita de pedra que a velhice não corroeu nem matou.


8 comentários:

  1. Um belo texto. A inclemência do tempo que passa por nós, e nos deixa marcados no mundo em forma de estátuas de pedra.
    Beijinhos

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  2. :)) Gostei. E gostei do blogue. Ainda nem tinha lido o conto de Natal, que também gostei muito mesmo. Já te adicionei.Abraço

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  3. Adorei o teu conto de uma aristocrata que enlouqueceu mas levou o seu paraíso consigo. Será que ela voltou? Ela prometeu voltar. Beijinhos

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  4. UM TEXTO FABULOSO...UMA HISTÓRIA TRÁGICA DE ALGUÉM QUE SE PRENDEU AO PASSADO E SE RECUSOU CRESCER...INFELIZMENTE ACONTECE...

    BOM DIA

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