Sobre o tema a Velhice, lançado este mês na Fábrica de Letras , já li todos os trabalhos lá publicados até hoje. Quase todos eles nos trazem a tristeza que é ser-se velho e todas as limitações físicas e mentais a esse estado inerentes. Muitos deles são relatos sobre pessoas que, por há muito terem deixado de ser jovens, se tornaram estorvos na vida de seus familiares e que, para comodidade destes, foram "guardadas confortavelmente" em instituições para esse fim criadas. Isto é triste? Claro que é. Mas há o outro lado. Quantos são os que não puderam chegar a ser velhos e que tiveram vidas breves? Não há conta. Pensando nisto, lembrei-me do texto escrito por José Saramago em seu Caderno e datado de 26 de Outubro de 2008, o qual abaixo transcrevo:
"Quando for crescido quero ser como Rita
Esta Rita a quem quero parecer-me quando for crescido é Rita Levi-Montalcini, ganhadora do Prémio Nobel de Medicina em 1984 pelas suas investigações sobre o desenvolvimento das células neurológicas. Ora, Prémio Nobel é coisa que já tenho, logo não seria por ambição dessa grande ou pequena glória, as opiniões dos entendidos divergem, que estou disposto a deixar de ser quem tenho sido para tornar-me em Rita. De mais a mais estando eu numa idade em que qualquer mudança, mesmo quando prometedora, sempre se nos afigura um sacrifício das rotinas em que, mais ou menos, acabámos por nos acomodar.
E por que quero eu parecer-me a Rita? É simples. No acto do seu investimento como Doutora “Honoris Causa” na aula magna da Universidade Complutense, de Madrid, esta mulher, que em Abril completará cem anos, fez umas quantas declarações (pena que não tenhamos conseguido a transcrição completa do seu improvisado discurso) que me deixaram ora assombrado, ora agradecido, posto que não é fácil imaginar juntos e unidos estes dois sentimentos extremos. Disse ela: “Nunca pensei em mim mesma. Viver ou morrer é a mesma coisa. Porque, naturalmente, a vida não está neste pequeno corpo. O importante é a maneira como vivemos e a mensagem que deixamos. Isso é o que nos sobrevive. Isso é a imortalidade”. E disse mais: “É ridícula a obsessão do envelhecimento. O meu cérebro é melhor agora do que foi quando eu era jovem. É verdade que vejo mal e oiço pior, mas a minha cabeça sempre funcionou bem. O fundamental é manter activo o cérebro, tentar ajudar os outros e conservar a curiosidade pelo mundo”. E estas palavras que me fizeram sentir que havia encontrado uma alma gémea: “ Sou contra a reforma ou outro qualquer outro tipo de subsídio. Vivo sem isso. Em 2001 não cobrava nada e tive problemas económicos até que o presidente Ciampi me nomeou senadora vitalícia”.
Nem toda a gente estará de acordo com este radicalismo. Mas aposto que muitos dos que me lêem vão também querer ser como Rita quando crescerem. Que assim seja. Se o fizerem tenhamos a certeza de que o mundo mudará logo para melhor. Não é isso o que andamos a dizer que queremos? Rita é o caminho."
Olá Quotidiano! Sendo "Rita o caminho", então sigamos em frente!! Adoro Saramago (aliás acho que aprendi a escrever com ele). E também não gosto de "choradinhos" sobre a velhice. É um problema, sim. Sem dúvida. Mais a mais na sociedade em que vivemos. A velhice (ou chegar a ela) é uma ambição descontrolada e obcecada dos que ainda não chegaram lá (nem sabem se lá chegarão). Os que já são velhos (gosto da palavra, ainda que te pareça fria), são apenas vítimas do medo dos mais novos. Por isso (e por outros motivos) é que a minha participação sobre o tema não se cingiu apenas "ao tema" em si.
ResponderExcluirGostei bastante desta tua participação!!
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Li o que escreveste na Fábrica, e não te vou deixar beijinhos ou abraços, mas o meu comentário "comes com ele"!! Sim coloquei-te na minha lista. É onde coloco as letras que me interessam ler. Não que não leia outras que ali não estejam colocadas, mas aquelas - incluindo as tuas - são as que faço questão de seguir. São letras que me despertam. Que me deliciam!
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Obrigada pelo que escreves!
Tudo o que pensei escrever. Houve dias em que li as publicações, umas atrás de outras, quando parei sentia uma tristeza, porque a velhice para mim é cabelos brancos, é sabedoria, é conhecimento. Parabéns eu também quero ser a Rita.
ResponderExcluirTodos queríamos ser Rita, todos queríamos poder trabalhar até ao fim, todos queríamos ter a mesma actividade cerebral mas parece que nem todos temos esse direito. A tua abordagem do tema marcou a diferença e deu-nos um exemplo de vida.
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