segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Os canalhas também envelhecem

 
(Foto de Andrei Tsoriev)


Durante a estação seca não chegavam a ser frias ou ventosas as noites. Eram, sim, de muita humidade. Foi numa dessas noites, de grande cacimbo, que a encontrámos.  Roupas velhas  cobriam-lhe o não menos velho corpo, pequeno e levemente curvado. Sem se importar com a nossa presença continuou a rebuscar o caixote do lixo, como se ali procurasse um tesouro. Tenho de encontrar comida antes que passe o carro e leve tudo, comentou. Senhora, levante-se e venha connosco, disse-lhe minha mãe, condoída e impressionada com tal miserável cena,  ao mesmo tempo que nos perguntava:  Filhas, faz lembrar a Avó, não faz? E tinha mesmo, aquela mendiga, alguma parecença física com a nossa avó, que vivia a centenas de quilómetros de nós e que somente de longe em longe a podíamos ir visitar.  A velha  soergueu-se e, sob a luz do candeeiro da rua, vimos-lhe melhor o rosto pregueado, redesenhado pela mão do Tempo.  Acompanhou-nos em passos firmes e  ligeiros e, apesar de toda a sua idade, parecia uma mulher saudável. No curto trajecto até nossa casa foi-se lastimando e agradecendo a ajuda. Contou-nos que morava para lá do término da cidade e que vivia sozinha num casebre ermo, já que os seus filhos, aqueles ingratos, embora homens de estudos e de algumas posses a haviam abandonado e desprezado por vergonha da sua humildade e nenhuma cultura.  Também influenciados que haviam sido pelas esposas, mulheres modernas, aquelas víboras, que lhe negavam um pão. Parentes outros não tinha para algum auxílio e nem sequer vizinhos. Porque Deus quisera ela havia sobrevivido a tanta fome e porque Deus também quisera ela havia envelhecido com saúde e equilíbrio mental. Quando algum estranho me dá uma ajuda, tudo bem. Se não, à noite, há sempre algum caixote de lixo com restos de comida ...

Saiu de nossa casa, naquela noite, levando alimento, alguma  roupa e a promessa de que seria ajudada sempre que precisasse. Deixou a promessa de que voltaria. E voltou. Cumpriram-se as promessas de ambos os lados e todos os dias vinha ela para o almoço. O jantar levava pronto e nem o pequeno-almoço havia sido esquecido. Recebia prendinhas e ganhava o que muitos,  ainda que ricos, não podem  comprar:  afecto e amizade. Andava mais limpa e com um ar mais feliz. Felizes estávamos também nós por podermos ajudá-la e permitir-lhe uma vida menos penosa. Era um pouco metediça e o que não lhe faltava era inteligência. Era ladina e tinha arte no pedir. O que pedia, se pudéssemos, dávamos.  Afinal de contas, nós que tínhamos pouco, perto de quem não tinha nada, era muito. Tudo lhe era desculpado, pois, além de ser ela já  velhinha, fisicamente fazia lembrar tanto a nossa avó ....

Passados alguns meses, que não saberia precisar quantos, começaram, como se por encanto, a desaparecer alguns objectos em casa. Em princípio coisas sem valor algum, ninharias. Queixa-se a minha irmã, algum tempo depois, que lhe desaparecera a caneta Parker deixada sobre a mesa, junto com os cadernos dos deveres de casa. Semanas depois, um cordãozinho de ouro deixado, inadvertidamente, no mesmo lugar tomou o mesmo rumo da Parker. Foi então que se levantaram os dedos apontando para a velhinha e que , num ápice, nasceu a desconfiança, posto que nenhum estranho estivera em casa. Nada lhe foi perguntado a respeito do sucedido já que, para minha mãe, em caso de dúvida nunca se julgue e tão pouco se acuse sem se ver. Realmente, quanto a isto, certezas nunca tivemos.

Naquela época o semanário Notícia era revista de grande circulação e sucesso. Consoante a reportagem de capa, rapidamente se esgotava a edição. E todos os sábados lá estava a Notícia em nossa casa. Naquele sábado, a surpresa foi enorme. Depois de lida a reportagem de capa, foi maior a revolta do que a surpresa. Estampado na capa o retrato da nossa velhinha. A manchete, em letras garrafais: A falsa mendiga. Reportagem de algumas páginas, com a história da nossa tratante, da nossa infame velhinha. Era mulher inculta, é verdade, mas de posses. Tinha terras, criação de animais e hortas. Tinha conta bancária robusta. Os filhos não a haviam abandonado e, como ela, também trabalhavam nas suas propriedades rurais, no interior do país. Os restos que apanhava nos tambores de lixo eram para alimentar os seus porcos e, todos os dias, ao entardecer, circulava, andrajosa,  na baixa da cidade, pelas esplanadas apinhadas de gente, a mendigar e a contar a sua trágica vida. Obviamente que as pessoas se comoviam com a sua fragilidade, com os seus cabelos brancos e, como nós, muitos e muitos se lembravam de suas avós. Abriam as carteiras, condoíam-se e davam. E alguns davam muito. A nossa burladora tinha, sem dúvida, um negócio muito lucrativo, o qual lhe  propiciou, ao longo da vida, ir acumulando bens.

Depois disto nunca mais a vimos. Saiu das nossas vidas e da nossa memória saiu o seu nome. Não esquecemos, porém, o logro nem a revolta  sentida por termos sido ludibriadas e ainda nos lembramos perfeitamente  de como, fisicamente, fazia ela  lembrar a nossa Avó. Felizmente, apenas fisicamente ....


(22fevereiro2010)
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Nota 1 - Esta é uma história verídica, vivida por mim, ainda criança. Trouxe-a especialmente aqui para que faça parte do tema deste mês na Fábrica de Letras.
Nota 2 - A fotografia acima é meramente ilustrativa e não retrata a pessoa sobre a qual escrevi. Sequer tem o objectivo de compará-la à pessoa da narrativa.



2 comentários:

  1. Quotidiano infelizmente são estas pessoas falsas que muitas vezes nos fazem recuar. Tive uma experiência parecida e acredita que me marcou. Não foi tão prolongada para sorte minha e azar da velha. Mas isto foi um mau exemplo que espero que já tenhas esquecido. Mais uma participação boa da tua parte. Beijinhos

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  2. Paga o justo pelo pagador, mas a verdade é que histórias destas acontecem muito por aí. Parabéns pela tua crónica.

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Luzia