sexta-feira, outubro 01, 2010

Chuva com cheiro de vida





Foto de Alexandra Henriques - olhares.com



Chuva em cima duma vaca

Longa fora a estiagem
De muitos e muitos meses
A queimar toda a pastagem
E a dizimar as outras reses 

Com corpo esquálido
E  úberes ressequidos
Arrastava-se, no campo cálido,
A solitária vaca, aos mugidos

Ia pisando, assim, o pasto
Carregando, da fome, o peso
Sob as patas o capim gasto
Acima dela o sol severo e aceso

Chuva que não vinha
Para sua salvação
E tudo o que a vaca tinha
Derramou-o pelo chão

Foram lágrimas de esperança
Que a terra seca bebia
E não havia mudança
A vegetação não nascia

Aos poucos a vaca desfalecia
Sentia que a vida se lhe esgueirava
Antes da tempestade veio a ventania
A terra, o sol já não queimava

Não tinha sido esforço vão
A vaca solitária renascia
Brotava a erva do chão
Em cima dela a chuva caía






(07março2007)




5 comentários:

  1. Nossa intimidade com a água ultrapassa todo entendimento. A água está na fonte da vida, determina nosso tempo aqui no planeta.

    Tristinha tua história, mas é do tamanho que dói viver. É real.

    Gostei muito.

    Beijos.
    Ricardo

    ResponderExcluir
  2. UM POEMA MUITO POÉTICO QUE CHEIRA A CHUVA, A VACA SOLITÁRIA...E A DRAMA !

    GOSTEI MUITO

    ResponderExcluir
  3. Ao ler o teu poema pareceu-me estar a reencontrar o mestre do real, do real atroz, campestre, difícil.
    Fizeste-me relembrar Cesário Verde.

    Gostei muito.

    ResponderExcluir
  4. é o renascer... muito bom...
    eu também participei,
    saudações otárias!

    ResponderExcluir
  5. Triste mas com "final feliz".
    Mais um (teu) belo poema.

    ResponderExcluir

Luzia