sexta-feira, outubro 08, 2010

A P...... da chuva

Pintura de Steve Hanks



Chuva miudinha ou nem tanto, pela manhã, à tarde ou à noite,  caindo sobre a cidade ou sobre um campo qualquer é tema inspirador. Traz com  ela os aromas, os cheiros, as reminiscências. O tal cheiro a terra molhada, tão cantado em verso e prosa, assim que ela, aos primeiros pingos, deixa a terra menos seca. É tema inspirador, realmente. Chuva benfazeja que caiu sobre a vaca esquálida que desfalecia, sem pasto para se alimentar. A chuva que traz cheiro a romance, principalmente no cinema, quando os amantes, encharcados,  se reencontram, se abraçam e se beijam sob uma tempestade que só eles não vêem nem sentem. 

Chuva é vida. Ou pode ser um "atraso de vida" se, por acaso, logo de manhã, ao se ir ao trabalho, com aqueles sapatinhos quase novos, que custaram os olhos da cara, cai aquela chuva inesperada que nem as previsões climáticas com ela contavam. E tu, qual salta-pocinhas, vais pulando aqui, saltitando ali, mas as danadas das poças perseguem-te. Já com dores terríveis nas panturrilhas mandas às favas ou a lugar muito pior o amor dedicado aos tais sapatos tão confortáveis e pimba!! encharcas, de uma assentada só, calçado, meias e pés e tentas pilotar com maestria aquela arma quase mortífera chamada de guarda-chuva. Tentativa vã já que o desgraçado tem mais força e poder do que tu. Desistes e resolves guardá-lo, mais molhado do que a própria chuva,  naquele saquinho plástico com a marca de um supermercado qualquer, sempre a jeito e reservado para essas ocasiões. Caem-te as bátegas sobre o rosto e bendizes essa tua opção de nunca usares rímel pela manhã. E, como és uma pessoa nada pessimista, tens a certeza que gripes não se apanham assim e, sendo a água da chuva a mais pura que existe, um tratamento de beleza matinal não faz mal a ninguém, muito pelo contrário. Não fosse o selvagem do condutor daquele automóvel enorme, tipo carro-de-assalto, ao fazer a curva ter jogado sobre ti toda a água  lá acumulada, tudo estaria às mil maravilhas. Assim mesmo, as perspectivas não são tão negras: apenas umas manchas de lama que a tua boa lavadora de roupas e um bom sabão não resolvam ...

E choveu o dia inteirinho e tu, ainda com a roupa molhada, entre um espirro e uma tossidela, no fim da tarde, só queres chegar ao conforto de tua casa. E ainda bem que ela não tem telhado de zinco! E chegas. Ufa! Que alívio! A primeira coisa a fazer: descalçar os tais sapatinhos que, em tempos não tão remotos, foram lindos e confortáveis.  Os infelizes estão, agora, monstruosamente feios. Depois de tirares as meias  agradeces a todos os deuses e mais alguns por estares sozinha em casa para que só tu possas sentir aquele cheirinho tão agradável que a chuva foi capaz de dar aos teus delicados pés. Vais tirando a roupa e o Boby, ali pertinho de ti, observa-te. Ele que, sempre que chegas a casa te faz uma festa enorme e quer receber festas também, desta vez recusa-as. Olha-te apenas, com os olhos mais condoídos do mundo.  Não ladra sequer. Mas tu adivinhas-lhe os pensamentos ... E eu que pensava que aqui em casa o único que cheirava a cão era eu ... Claro que relevas isso pois sabes que ele tem razão.

E num dia como este, pões-te a pensar seriamente,  em ir, ainda que debaixo de uma enorme tempestade, para a estação mais próxima e aguardar um combóio qualquer que te leve para um lugar em que só chova três dias por ano, e pouco, e que ninguém se lembre sequer de pronunciar a palavra chuva e que nem traga na memória todos os seus aromas ....



(Quanto ao título, aquele P ..... 
A Poesia da Chuva, está melhor?)




(08outubro2010)



2 comentários:

  1. GOSTEI IMENSO DESTA CHUVA...MUITO BEM ESCRITA, MUITO POÉTICA,APETECÍVEL

    "A POESIA DAS CHUVA "ESTÁ MUITO BEM SIM

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  2. Como eu a entendo! Quem me dera, a mim também, poder fugir para longe da chuva!... Por mais romantismo que alguns lhe encontrem, eu, decididamente, antes quero o cheiro do sol!Gostei do seu texto e subscrevo-o (se me dá licença!...)

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Poema