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| Foto de Koval Vasily |
Muito antes de amanhecer ouvia-se o silvo da fábrica. Chamavam-lhe fábrica porque dar-lhe o nome de campo de trabalho escravo poderia indignar aqueles que pensam que, no correr do século XXI, eles já não existem e viriam as denúncias, as averiguações, os inquéritos policiais e as contendas jurídicas. Camuflava assim a verdade o dono do campo, porque assim lhe convinha. Tudo, menos advogados e tribunais. Escondiam-se verdades e mentiras atrás dos muros altos da fábrica e do lado de fora, sobre a entrada, apenas uma tabuleta, quase apagada, indicava que o lugar era uma Fábrica de Letras. Após o silvo estridente, sem que ainda tivesse nascido a manhã, no pátio da fábrica perfilavam-se, servilmente, algumas dezenas de operários. Homens e mulheres, em seus uniformes cinzentos, de braços caídos e olhos tristes fixando o chão, parecendo não escutarem a prelecção que diariamente lhes fazia o patrão, homem rude no trato, alto e magro, de nariz aquilino num rosto que não chegava a ser feio, não fosse o olhar perverso e o sorriso cínico que lhe eram tão peculiares. Os operários sequer lhe conheciam o nome e, entre eles e para eles, o patrão era o senhor Malsim, aquele que lhes merecia apenas desprezo. Dele tinham muito medo. Medo enorme, porém, não maior do que o ódio que lhe dedicavam. E, se no começo de cada dia de trabalho sempre havia a coação, as ameaças ao corte da sopa, não fosse o trabalho a contento, o relembrar das obrigações e deveres que cada um tinha dentro daquele espaço onde o que se pretendia era uma elevada produção de letras, naquele dia não fôra diferente. Após passar em revista o conjunto dos operários, o dono do campo, vulgo senhor Malsim, fez a prelecção habitual, realçando que estaria sujeito a penas severas todo aquele que descumprisse ou tentasse descumprir qualquer regra por ele imposta. Que se produzissem muitas letras, todas com a maior perfeição, mas que não ousasse, nem em pensamento, como sobejamente estava ciente cada um dos operários, juntá-las, para que com elas se formassem palavras, quer escritas ou pronunciadas.
Na primeira fileira de trabalhadores, carregada de obrigações e de nenhum direito, como os demais, estava Natália, mulher de corpo e mente fortes, a quem cabia a tarefa de fabricar a letra A. Na última fileira estava Afonso que fazia, à exaustão, a letra M, de música. Na outra extremidade do bloco ficava sempre José Carlos, homem de mil revoltas, com a atribuição do fabrico da letra O. Distanciado dos três primeiros e incumbido da feitura do R, estava Adriano, homem plácido e de olhar doce. Estes quatro operários eram os mais constantemente vigiados por entender o Sr. Malsim que, se mesmo separados, eram elementos perniciosos, juntos, representariam um perigo iminente ao bom funcionamento daquela organização. Vedava-lhes, portanto, o direito a reuniões e a qualquer outro tipo de comunicação, ainda que gestual, ou troca de olhares que fosse.
Na primeira fileira de trabalhadores, carregada de obrigações e de nenhum direito, como os demais, estava Natália, mulher de corpo e mente fortes, a quem cabia a tarefa de fabricar a letra A. Na última fileira estava Afonso que fazia, à exaustão, a letra M, de música. Na outra extremidade do bloco ficava sempre José Carlos, homem de mil revoltas, com a atribuição do fabrico da letra O. Distanciado dos três primeiros e incumbido da feitura do R, estava Adriano, homem plácido e de olhar doce. Estes quatro operários eram os mais constantemente vigiados por entender o Sr. Malsim que, se mesmo separados, eram elementos perniciosos, juntos, representariam um perigo iminente ao bom funcionamento daquela organização. Vedava-lhes, portanto, o direito a reuniões e a qualquer outro tipo de comunicação, ainda que gestual, ou troca de olhares que fosse.
Já no interior da fábrica e prontos para iniciarem as suas tarefas ainda puderam ouvir o Sr. Malsim a ordenar-lhes rapidez e perfeição na execução dos trabalhos já que havia inúmeros pedidos de letras para serem entregues, sem demora, a instituições de ensino, editoras, escritores, jornais e, principalmente, à Internet, coisa que desconhecia aquela escória o que seria. E a querer mostrar a sabedoria que não tinha foi-lhes falando de pessoas, essas sim, cultas e gabaritadas, que escrevem on line, em bogs, sites, digital books, etc, etc, assunto desnecessário para tão ignorante e tacanha gentalha. Mandou, então, que as letras daquele dia fossem fabricadas no formato arial, courier e verdana para, com competência, pudesse ele atender a tão expressiva fatia daquele mercado que lhe dava lucros desmesurados. Já ao trabalho!, gritou-lhes, e o único ruído que quero ouvir é o das máquinas em funcionamento.
Malsim, ora vigiava os operários, ora sentava-se à sua mesa de trabalho, onde, numa velha Remington, dactilografava relatórios e cartas cujos teores os operários desconheciam. Olhava insistentemente para o relógio e anotava a quantidade de letras que se fabricavam por minuto. Dava sempre um sorrisinho cínico quando a produção extrapolava as expectativas e as previsões. Caso contrário, ficava furibundo e pelos olhos saiam-lhe labaredas de perversidade ...
A meio daquela manhã, José Carlos, o fazedor de O´s decidiu que poria termo àquela situação vexatória. À dele e à dos demais companheiros. Foi fabricando, com esmero, os O´s, entrelaçando-os, um após outro. A sua arma estava feita e com ela a liberdade de todos estava garantida.
Ao passar atrás de José Carlos, a vigiar-lhe o comportamento e o trabalho, Malsim, com uma rasteira é por aquele derrubado. Correm todos os operários, rendem-no e desarmam-no. Sim, todos sabiam que o patrão portava uma pistola para fazer valer o seu poder. Com os O´s entrelaçados, em forma de corrente, Malsim é preso à imensa máquina de fazer cedilhas e circunflexos. E lá o deixam. A mordaça é desnecessária já que o barulho das máquinas em funcionamento abafa-lhe os gritos ...
José Carlos, toma a velha Remington e chama os companheiros. Venham, venham todos, venham mais cinco, e vamos juntar letras ...
A máquina de escrever
Meu amor silabado minha esdrúxula
meu acento tão grave que me abre
minha rosa dos ventos minha bússola
minha vírgula tola meu sentido
reticências parágrafo gemido
A
caído
na tecla do ouvido
E
incerto
dois espaços parágrafo deserto
I
sorriso mundano que é preciso
O
círculo fechado
U
murmúrio atento e obrigado
Meu carreto de sonhos meu endereço
retrocesso paragem recomeço
minha caixa postal sem nada dentro
minha resposta paga TEMPO E VENTO
meus dois pontos de angústia CARNE E ÁGUA
minha letra dobrada MAR E MÁGOA
meu ditongo de sono PÃO E CÃO
meu açaimo de frases de palavras
agastadas batidas desgastadas
ditadas digitadas agitadas
pela dança guerreira dos meus dedos.
Minha letra maiúscula de MEDO
tabulador da minha solidão.
Minha aspa dos olhos minha infância
minha última cópia da verdade
til subtil caindo no papel
pelo trema abolido da saudade.
(José Carlos Ary dos Santos)
Escancararam o portão daquela Fábrica de Letras e levaram consigo, os operários, todas as letras por eles fabricadas até então para que, em liberdade, as juntassem da forma que melhor lhes conviesse.
Para trás, amarrado, ficou Malsim, que gritou:
Exijo mais respeito, sou o António de Oliveira ......
Ninguém o ouviu ...
(14setembro2010)
(Para patrões e operários desta Fábrica de Letras)

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