sexta-feira, setembro 10, 2010

Peça em dois actos




Foto de Wladimir Fedotko




Peça em dois actos

 I

Deram-me um palco iluminado
Por estrelas cadentes
Lustres de cristais
Com luas e sóis pendentes
Cenários diversos
Adversos
Controversos
Cravados em paredes agrestes
Cobertas de cetins celestes
E também de sangue
Respingadas com o branco das nuvens
E dos sonhos encontrados
E perdidos
Cenários  móveis ao sabor das sombras
Ou de cor despidos
Palco giratório
Transitório
Agarrado a cortinas espessas
Qual muro divisório
Imposto
Transposto
Palco de chão firme
Tantas vezes movediço
Pantanoso
De silêncio temeroso
Onde interpreto peça única e inaugural
No teatro de vida e morte
Sem texto previamente escrito
Meramente experimental
Que com muita sorte
Nela sou artista principal
E em malabarismos
Levanto-me e caio
Cavo abismos
De segredos
Calo os medos
Sou bailarina
Sem coreografia
À porfia
Canto rio e choro de alegria
Ou de tristeza arrepiante
Sou actriz
Iniciante
Eterna aprendiz
Sem contra-regra
Ouço o aplauso
O apupo a vaia
Rasgo a saia
Dramatizo
Escandalizo
Improviso
Espontâneo gesto
E o resto?

II



Será o acto derradeiro
Do que foi tragédia
Drama ou comédia
Pendurada no cenário
A máscara que a actriz
Nunca usou nem quis
Cairá o pano
Cairá a Vida
Representação ovacionada
Ou infeliz
Não previamente ensaiada
E sem direito a bis.

 (17outubro2003)



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