segunda-feira, julho 12, 2010

Ponto inicial


(Pintura de Virgil Elliot)




Viajas pensamento, 
passageiro clandestino,
agarrado ao vento...
Adivinho o teu destino;
vais com pressa desmedida,
estilhaçando à rotina as vidraças 
para alcançares o meu ponto de partida
tão distante das hostis praças
desta cidade nauseante
com seu alto mar de pedra lisa
e de multidão que, em asfalto abrasante,
me sufoca e pisa ...
Desprendes-te destas longas avenidas
e de suas transversais de medo,
vais além dos subúrbios onde humildes vidas
são podadas muito cedo.
Distancias-te dos viadutos cinzentos, 
entrelaçados como pulsos algemados,
e dos rios estagnando, pardacentos,
esquecidos, semimortos e esmagados.
Afastas-te – és livre, só tu podes sair – 
só teus, pensamento, são os céus e os oceanos
e o poder de reconstruir
a casa de minha infância, demolida há tantos anos,
a estreita alameda arborizada de paz 
– meu chão pisado com leveza até à escola – 
só tu, pensamento,  és capaz
de devolver ao meu ombro a sacola
da merenda de então 
– sonhos recheados de delicadeza e ideais – 
e algum pão...
Percorres caminhos coloridos e irreais ...
E eu, ainda com as mãos de luas cheias,
em quartos,
colhidas nas noites em que longe de mim vagueias
e de imagens fazes meus olhos fartos,
sei que também posso voltar contigo
ao meu ponto inicial
e lá encontrar abrigo
afinal ...
 

11fevereiro2004



6 comentários:

  1. " Não há machado que corte a raiz ao pensamento!"
    Muito belo!

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  2. #O poema é liberdade" porque as viagens são intermináveis.
    Bela participação poética!

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  3. As imagens e as andanças do pensamento transformam o ser humano em um grande vaijante; o maior deles. Não há limites para sensações, prazeres e dores.

    Lindo poema, GB.
    Aqui, como sempre.

    Abraço.
    Ricardo

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  4. – sonhos recheados de delicadeza e ideais –

    e algum pão...

    Lindo poema! ;D

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Poema