segunda-feira, julho 05, 2010

O homem algemado


 


Fecham-se as portas e as janelas depois de terem entrado rapidamente as crianças que brincavam na rua. Rua sem árvores, de casas baixas e de cores desbotadas, com mal cuidados e exíguos quintais de portões sem trincos nem cadeados. Rua suburbana de uma qualquer cidade. Dentro das casas o silêncio trazido pelo medo. Lá fora, o dia-noite de sol ausente e de nuvens de chumbo a avisarem que em breve haverá tempestade. São dez e vinte da manhã. Ouve-se o primeiro disparo e o estilhaçar de uma vidraça. Ouve-se, em seguida, pelo altifalante o pedido da rendição do homem.  O pelotão que ocupa a rua tem ordem expressa para não o matar. Querem-no vivo. A morte é castigo pouco para ele. Uma rajada de metralhadora ecoa e há um trovejar contínuo. Os relâmpagos riscam o céu escuro. Ainda não chove.

O homem sai. Traz as mãos erguidas e no rosto uma expressão de revolta e de incredulidade.  Está atordoado, atónito. Não compreende o que se passa. Ele, um operário fabril, chefe de família, com os impostos pagos em dia, que nunca matou, que nunca roubou, que nunca se rebelou contra nada nem ninguém, um homem de mãos limpas, conformado com a rotina da vida, sem grandes sonhos nem ambições. Pensou tratar-se de um engano. Estavam a prender o homem errado.

Ao mesmo tempo que um soldado o algema já outros três deixam a casa trazendo consigo alguns livros que, imediatamente, são lançados ao asfalto e incendiados. O alaranjado das labaredas contrasta  com o negrume do céu. A chuva será torrencial.

Enquanto o soldado conduz o homem algemado até ao jipe, com brutalidade vai lhe dizendo: Praticaste um crime hediondo e por isso vais pagar caro. Violaste uma lei governamental. Já ouviste falar na "lei da rolha", insurrecto? Desconheces as leis? Pois nós sabemos muito bem quem as infringe, canalha. Terás uma punição severa por leres Saramago. Isso é ilegal.  Aliás, como ele deves ser. Um ateu e um comunista ignóbil.  Certamente também lá estiveste a empunhar um livreco dele numa mão e com a esquerda atiraste-lhe um cravo vermelho. Sorte nossa que ele já ia morto. E foi tarde ...

O homem algemado é atirado,  com violência,  para dentro do jipe e este parte com pressa. O  começo do cumprimento da pena do homem algemado não pode demorar. O último soldado do pelotão bate a porta, olha para trás, para aquela casa tão simples, de vidraça estilhaçada e ajeita o capacete. As suas lágrimas escorrem e confundem-se com as bátegas caídas do céu. No asfalto, a chuva apagou as labaredas  e levou as cinzas dos livros do autor preferido  e  tantas vezes lido pelo homem algemado. Já não troveja. A chuva é muito forte e são dez e trinta e cinco da manhã.

(Minha humílima homenagem a José Saramago)

(05julho2010)

(tb aqui)




2 comentários:

  1. Mal de nós quando se começar a queimar livros outra vez.Muito bom.

    ResponderExcluir
  2. Receio já ter faltado mais para que também estas violações possam acontecer e nós acabemos por as admitir.
    Gostei muito do seu texto... Além de estar muito bem escrito, o tema é actualíssimo. Talvez desperte consciências...

    ResponderExcluir

Poema