Pintura de Hamish Blakely
(meramente ilustrativa)
(meramente ilustrativa)
Um estampido seco ecoa. Depois o segundo. E ainda mais outro. A empregada larga a louça na pia da cozinha, a torneira aberta e corre pelo corredor até à sala. Nesses breves segundos viu-se desempregada novamente. E tanto lhe custara a arranjar aquele emprego. Tudo indicava que era suicídio. Mas tinham sido três tiros. O primeiro poderia ter falhado num instante de hesitação, o segundo teria sido no pé e então o terceiro no ouvido ou na boca. Terá de avisar a polícia mas antes de tudo tentará socorrer o homem que lhe paga o salário. Prepara-se mentalmente para a cena que encontrará. Um homem agonizante ou morto, quiçá. Sangue, muito sangue no sofá. Ou estaria ele de pé, perto da janela? É suficientemente forte para enfrentar este tipo de situação. Nasceu e cresceu num morro do Rio de Janeiro e com miséria, violência e morte conviveu amiúde. Está acostumada. Só não gostaria de perder o emprego e, consequentemente, o bom salário que recebe para trabalho em nada exaustivo. Logo ele, o seu patrão, um homem tão sereno e afável, que a tratava com tanta simpatia e que por ela até demonstrava algum afecto, capaz de cometer tal insensatez. É certo que, por vezes, notava-lhe tristeza no olhar e algum abatimento. Atribuía-lhe esta melancolia ao facto de viver só. Nunca lhe conhecera família. Um filho que fosse, ou um neto. Visitas tinha-as raramente: uma amiga ou outra. Quando saía de manhã era para voltar a altas horas e sempre a avisava para se despreocupar com as suas refeições. Que as preparasse só para ela. Se ficava em casa passava horas a fio em seu atelier entregue à criação de belos e enormes quadros. O seu patrão gostava de cores. Cores fortes e muitas, embora a sua vida fosse pintada em tons cinzentos, como uma vez o ouvira desabafar.
A sala estava mais iluminada do que era usual estar àquela hora, logo após o jantar e, para surpresa da empregada, não havia nem sangue, muito menos um homem morto ou moribundo. Encontrou o seu velho patrão sentado no sofá, com um revólver que, calmamente manuseava. Com um olhar quase infantil sorriu-lhe, pediu-lhe desculpa pelo susto que porventura lhe houvera causado e para que ela não tivesse medo dele. Como justificativa, disse-lhe que apenas quisera desfazer-se das últimas três balas em sua arma, ao que apontou para o quadro exposto sobre a lareira. O quadro que ela achava o mais bonito de todos estava agora perfurado e destruído. Muitas vezes quisera saber quem era aquela mulher que o seu patrão tão bem pintara mas nunca ousara perguntar-lhe. E nada lhe perguntou mas indignou-se com tal despropósito. Ao aperceber-se disso o velho pintor gargalhou. Depois, ainda rindo, disse-lhe que quadros são quimeras e que delas muitas vezes, ao longo de sua vida, se quisera ver livre. De muitas conseguira, mas nunca daquela que ele tantas vezes pintara: a mulher do quadro. Tinha-a tido muitas vezes em seu atelier e em sua cama e para isso sempre pagara. O preço era sempre previamente avençado e pago e não permitia, aquela mulher jovem e belíssima, qualquer tipo de gratificação, qualquer tipo de prenda ou mimo. Não lhe conhecera o passado mas sabia que eram as ruelas escusas, as tabernas escuras com cheiro a vinho barato e a suor de marinheiros e estivadores e as pensões infectas nas imediações das docas o seu presente. Muitas vezes para ele posara ela e quando não, pintava-a assim mesmo. Conhecia-lhe todos os contornos do corpo, o olhar, os cabelos, o rosto, as coxas, os seios. A desmesura da sua paixão por aquela mulher levou-o a propor-lhe um outro tipo de vida. Mas que fosse com ele. Sempre com ele. Poderiam ficar juntos e até casar, se ela quisesse. Eram ambos jovens e teriam filhos, se ela os quisesse também. Ela disse que não. E foi peremptória. Era feliz com a vida que levava e só o seu corpo vendia. A sua alma não tinha preço nem estava à venda.
Sem pejo mas com um sorriso de desgosto, perante a perplexidade da empregada que atentamente o escutava, acrescentou que, naquela noite, matara a mulher do quadro pela segunda vez. A primeira tinha sido a sério e há muito tempo. Só não conseguira matá-la dentro de si.
No corredor, em direcção à cozinha, a empregada decidiu que, no dia seguinte, sem arrependimento, procuraria um outro emprego.
(27junho2010)
(Tema: `Disparou`, nesta Fábrica)

Uma boa estória de desfecho inesperado.
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