quinta-feira, dezembro 08, 2005

Gato-poema

Não lhe deram nome pomposo, gracioso ou algum outro que o ridicularizasse. Chama-se Gato e gato é. Gosto deste Gato e de todos os outros gatos. Tenho admiração por todos aqueles que sobre eles escrevem, em prosa ou em verso. Tenho especial apreço por quem sobre este Gato assim escreveu:


GATO PRETO

Hoje escrevo dele e pra ele
porque mo indicam as musas negras
que de tão sábias atestam,
mas detestam que é dele que devo falar...
Veio pequeno, indefeso
pró mundo pouco coeso
onde, se calhar nem queria estar.
Veio empurrado por razões
de sonhos contradições
dos cães do ausente
ausência que não se pressente, mas sente
sublimada por quaisquer razões...
E veio preto
negras são as musas e ele preto
do preto mais preto que há!
Tinha de pelos, uns brancos
que lhe faziam pescoço
como gato ,moço
iriam ser do ser.
E ousou estar junto mim
fechado num cubo quadrado
às vezes pouco bem tratado
de não ser lá o desejado...
E foi rondando o meu mundo
de si algo profundo
como de negro se vestia...
Nem as pontas brancas das patas
que lhe fazima da barriga o apoio
alguma vez o tornaram
menos saloio...
E foi assim que assim foi
como dor que não dói
e traz do nada companhia
até um dia...
Nesse dia, lá longe
também quis ganhar o mundo
todo de uma vez
e gato macho se fez
na ousadia da conquista
mas voltou de galo sem crista
que o mundo que queria ver
não estava preparado pra ter...
Era um dó vê-lo querer
algum calor de saber
que pra mim era bom tê-lo!
E tive e fiz com que não se fosse
amarrado às solidões
das noites
até mesmo as dos verões
que passou junto
sem coleira nem algoz
de uma alegria sem nós.
Mas um dia dei-lhe os telhados
deste mundo
e do dele...
Foi testando o apartar
e vinha sempre contar
o que viu e sentiu
de terno ronronar
ao fogo da lareira
ao desespero de noite inteira
do desejo de lá voltar....
E voltou, uma e outra vez mais!
E decidiu lá morar, num telhado
qualquer
pra namorar a lua,
e gatas do seu encanto.
Voltava amiúde
mas já sem quietude
que já não me fazia espanto...
E eu deixava que fosse
por mais que me fosse doce
pensá-lo junto de mim...
Começou a aparecer menos vezes
vinha espreitar-me algures
da janela da saudade,
mas sabe-lhe melhor a liberdade...
Ainda aparece, por vezes
de olhos ternos a dizer...
quero que o nada me prive
porque ganhei o gosto de ser
livre!


AP 17/09/03

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