segunda-feira, abril 05, 2010

O X é a salvação

Estivesse minha avó ainda por aqui e exclamaria: mostra-me o teu blog, dir-te-ei quem és!
Mas, oh vó,  não é bem assim, rebateria eu: quem vê blog não vê coração.
- Oh se vê! E digo-te mais, filha: não vê só coração. Vê alma, vê cara e corpo, vê a prole, vê até o barrigão que aloja aquele que está para vir, vê cão, gato e papagaio. E fica até a saber os nomes dos ditos, as idades, os gostos e manias.

Contra factos não há argumentos e as avós sabem sempre muito mais do que nós e quase sempre têm razão.

Calo-me. Preparo-me, mais uma vez,  para partir, pois nesta questão de blogs sou nómada. Qual beduíno, atravesso blogs desertos, arenosos e áridos. De desertos até gosto. E muito. São belos. Gosto muito menos de blogs desertos, enfadonhos e cansativos de percorrer. Vez por outra aparece nessa imensidão desértica um oásis. Miragem? Não. É real.  Blogs oásicos existem. E ali, à sombra da palmeira, vem o deleite. Bebo palavras frescas, escuto a música da água  que jorra da fonte da sabedoria e guardo, ou pelo menos tento guardar,  ensinamentos  ali deixados por um qualquer desconhecido. E eu gosto de aprender. Gosto muito. 
Mas, como na vida nem tudo são oásis, nos blogs também não. Vai-se o deleite, vai-se o prazer da leitura quando me aparece pela frente um daqueles "ossos duros de roer" e, principalmente, de ver. Fico sempre na dúvida se aquilo é um blog ou uma página de anúncios. Eles dizem tudo. Menos o que deveriam dizer. Eles informam que têm  novecentos e trinta e quatro seguidores, todos devidamente qualificados e mostram, exaustivamente, a carinha de cada um deles. Eles contam-nos que, naquele momento, alguém, por esse mundo fora,  os lê. E vem, à laia de demonstrativo,  o quadro estatístico: um leitor localizado nas Ilhas Fiji e mais outro no Butão. Como se ninguém soubesse, dizem-nos que chegou a Primavera e "chovem" florecas de todas as cores e matizes. Agora azar, mas azar dos grandes, é termos que ficar com os dedos congelados, cobertos de floquinhos de neve, só porque chegou o Inverno. E os selinhos faiscantes? Servem para piorar ou provocar o estrabismo de quem os observa? Tenho para mim que o intuito é esse ou, então, de desviar a atenção do leitor. Enquanto se vêem selos, deixa-se de ler o que não há ...

E, por essas viagens de pseudo-bloguista que sou, ainda me deparo com consultórios médicos (ontem não escrevi porque estava com a unha do dedo mindinho totalmente encravada e, por conseguinte, totalmente desmotivada/o para escritas); deparo-me também e algumas vezes com divãs de analistas (estou down, numa depressão filha da p%&# porque o meu gato de estimação entalou o rabo no portão ... logo, nada de escritas). Dos consultórios, dos que mais gosto são os de beleza (hoje estou inspiradíssima para escritas ... fui aos saldos. Visto roupa nova, mudei o visual, pintei os lábios de rosa-choque, já posso escrever ...). Não vou referir aqui aqueles que nos fazem desaprender. Principalmente desaprender o idioma português. Ok.Ok. O que interessa é a mensagem ....

E há, tenho encontrado muitos nessas minhas andanças, aqueles que mendigam. Pelamordedeus, leiam-me, sigam-me, digam-me se gostam de mim e do que escrevo. Quero alcançar uma marca histórica de cinco mil, setecentos e noventa e quatro leitores. Não me abandonem. Sem vocês eu não existo.

Pois bem, Vó, dou o braço a torcer, dou a mão à palmatória. 

Nessas minhas viagens, por vezes e talvez no afã de querer conhecer, aprofundo-me  e abro as caixas de comentários. Aí sim! É uma paz! Chego a esquecer que existem Iraques e Afeganistões. A fome em África foi sanada e os pedófilos do mundo todo, mormente os membros da Igreja Católica, queimados na  pira. E não sei se por ser época de Páscoa são só Amén, Amén, Amén. Vejo rebanhos imensos de carneirinhos, onde vai um, vão os demais, e, para sorte, se for hora de ir para a cama, ponho-me a contá-los e não há insónia que me vença. Borbulha, no entanto, em minha cabeça, uma dúvida. Não haverá nesse rebanho uma ovelha negra? Ou serão essas trituradas à nascença? Ou amordaçadas para que das suas bocas não saia nenhum méeeeeeeeeee que não se queira ouvir, no caso ler? Vá-se lá saber.... Só sei que nessas caixas de comentários são tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais, que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz ...

Só não amanhece o dia (a redundância é do Chico) em paz quando há blogs-abismos, como acontece este mês na Fábrica de Letras. Primeiro: detesto alturas. Segundo: não estou à altura de escrever sobre tal tema. Terceiro: caio. Vou caindo. Vou voando. Imagino o meu corpo estiraçado lá embaixo, exangue. Dezenas de ossículos espalhados no chão manchado de vermelho. Digo não. A gente tem de aprender a dizer Não! No último instante, antes de me esfacelar contra o solo, estico a mão, alcanço a barra superior do écran, lado direito, e sei que o X é a salvação ...



4 comentários:

  1. Tua Vó tá mais que certa.
    Gostei do teu oásis :)

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  2. Nessas coisas da escrita, não sou tão radical. Acho que todos devem escrever, mesmo esses enunciados, porque é melhor escreverem do que fazerem outras coisas.

    Os seguidores e comentadores Amén também são naturais, porque normalmente são pessoas amigas ou seguidoras regulares que partilham as opiniões. Quem não partilha, normalmente não vai e normalmente não comenta.

    Vendo bem, acho que isto não é um comentário Amén, mas será que saiu assim só pelo texto em questão?

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  3. Os blogs dizem-nos sim muito de quem escreve, mesmo que escreva nas entrelinhas, por vezes adivinhamos a causa da tristeza, da alegria... gostei muito bjs

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  4. Gosto tanto de te ler, que desta vez tive que ler duas vezes para ver se estava a perceber o que estava a perceber.
    A tua Avó inevitavelmente terá razão, mas... por que raio crio eu um blog (na internet ao alcance de qualquer um) se não for para partilhar. Seja lá o que for. Partilho. Como referi no meu último post "Estou de volta. Fresquinha que nem uma alface (e para quem não gosta de alface, temos pena). Não te "zangues" pá!!
    Se reparares, acontece nos blogs e em tudo na vida!
    Relativamente ao tema da Fábrica de Letras... Nós é que o escolhemos... E porque haveríamos nós de falar apenas sobre coisas "bonitas"?

    Muito pertinente, este teu post!
    Beijinhos**

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