Espantava-se. Durante o almoço, no refeitório da fábrica, aquelas mulheres, suas colegas de profissão, não se calavam. Falavam num sem parar e ela, no canto da mesa, ia ouvindo os mais variados assuntos, as mais variadas conversas, que giravam quase sempre em torno do mesmo tema: a vida. Admirava-se. Punham elas, sobre a mesa, as suas vidas a nu. Descascavam-nas, como quem descasca laranjas. Contavam sobre os namorados, os maridos e os amantes e comparavam certos desenlaces aos enredos das novelas que, depois de um dia de trabalho, tinham o privilégio de ver, sossegadas, no aconchego de seus lares. Quando a campainha tocava, estridentemente, a anunciar o término do horário do almoço do seu grupo, voltavam aos seus locais de trabalho e, pelos corredores, ainda havia tempo para se contar mais um detalhe porventura esquecido. Ela acompanhava-as e assim reiniciavam mais um período de lavor. As máquinas produziam os tecidos e com eles um barulho ensurdecedor. Todas usavam equipamento de protecção auditiva mas, mesmo assim, servia ele apenas para atenuar o enorme ruído do trabalhar constante das engrenagens.
Era a última a chegar a casa, à noitinha. Na sala, o pai via TV a todo o volume, enquanto petiscava alguma coisinha antes do jantar. Ora umas rodelas de paio, ora azeitonas com pão. Quase sempre e com muita atenção via programas desportivos. Ele via. Os vizinhos ouviam. Há que se estar actualizado - principalmente quanto ao futebol - para, no café, podermos e sabermos discutir o assunto com os amigos, dizia-lhe ele. Muitas vezes se perguntara ela se não estaria seu pai com perda de audição, mas ele dizia-lhe que não, escutava tudo perfeitamente. Ainda na sala, já podia ouvir ela o ruído da panela de pressão vindo da cozinha, onde, àquela hora a sua mãe, atarefadíssima, preparava o jantar. A sua mãe gostava de música, tal como o seu irmão. Na cozinha, com o apito da panela de pressão com a sopa quase pronta, umas vozes, em dupla, fingiam cantar. Sabes, filha, ainda gosto bastante de ouvir um bom fado, mas estes dois rapazes brasileiros, encantam-me com suas belas cantigas sertanejas. Ela calava-se. No quarto, o irmão escutava hard rock e ultimamente andava empolgado com axé music. Mana, comprei o CD mais recente da Daniela. É bué de fixe, queres ouvir? Ela nem respondia, como se adiantasse dizer que não. Tudo naquela casa era barulhento e todos ouviam tudo. Querendo ou não. Até à noite, antes de adormecer, escutava o ressonar do seu pai e de longe em longe o ranger da cama onde os seus pais se davam a alguns prazeres. Os gritinhos da sua mãe e os frémitos, algo animalescos, de seu pai.
Depois do jantar lá foi ela ao café, como era habitual, encontrar-se com o namorado. Gostava dele. Gostava bastante. Gostava da sua serenidade e da sua sinceridade. Sabia que o amava e que não saberia amar outro homem se não ele. Ele, o amor primeiro e único até então. Quando ele a viu entrar fez-lhe sinal para que o aguardasse lá fora. O café estava apinhado e a algazarra era enorme. A TV transmitia, em directo, um Benfica X Sporting e o ambiente não era o ideal para uma conversa.
Já lá fora, olhando-a nos olhos, ele disse-lhe que não poderiam continuar porque não saberia fingir. O dano seria maior, para ela, se o soubesse um mentiroso, um fingidor. Tinha sido bom. Tinha sido lindo mas, da sua parte, o amor havia morrido, porque, nesta vida, tudo, um dia, morre.
Ela, mais uma vez, calou-se. Não chorou. Nessa noite não voltou para casa. De manhãzinha, um pescador encontrou-lhe o corpo estirado na areia da praia. O rosto salpicado pelas ondas. Um rosto bonito e sereno. Na mão apertada contra o peito, um papel escrito,
Sem alarde
como se pisasse em pétalas de rosas
cheguei ao fim.
Com minhas mãos ruidosas
agarrei o silêncio.
Adeus,
Viridiana
O pescador, perplexo, olhou para aquele corpo morto e, em seguida, olhou para cima, para o despenhadeiro. Não era alto. Era altíssimo.
(02março2010)
(Também aqui: Fábrica de Letras)
É um outro silêncio, sem dúvida... Gosto da forma como escreves. É um bom texto sobre a forma como se escolhe muitas vezes o nada, sobre a dor. Beijinho
ResponderExcluirTãooooo triste. :(
ResponderExcluir*
Triste ,mas muito lindo!beijos,chica
ResponderExcluirTriste mas muito bom*
ResponderExcluir=)
Uau... fiquei com um nó na garganta. Adorei.
ResponderExcluirBjs :)
O silêncio pode ser excelente mas, na medida certa. Ela precisa de desabafar e nunca o fez, o fim acabou por ser terrível.
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