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| Ben Goossens |
Bebera durante a noite toda, na taberna do fim da rua, rodeado de seus amigos de tantas e tantas madrugadas: boémios, poetas, músicos desempregados, desvalidos e mulheres. Muitas mulheres, mulheres de vida airada, frequentadoras assíduas da taberna, que só ali encontravam, ao fim do serviço, o lhes era negado lá fora: amizades e afectos.
Já a manhã ia alta quando o acordaram. Esbravejou e revoltou-se com a pergunta que ouviu, em tom autoritário:
- Não foste trabalhar, vadio?
- Se tivesse ido não estaria aqui a responder a idiotas. Deixa-me. Faço da minha vida o que quero.
- Desprezaste a oportunidade que te dei, maldito. Bom emprego, boa remuneração, bons colegas de trabalho. Desperdiçaste o teu talento e trocaste tudo o que é bom pela companhia daquela choldra com quem privas agora, enfiado naquele antro de gente a beirar a indigência.
- E daí? Gosto deles. Gosto muito. Divertimo-nos. Cantamos, fazemos poemas, bebemos e amamos.
E o outro, tresloucado, aos gritos:
- Sabes lá o que é o amor! Também o rejeitaste. Apresentei-te a duas ou três que te amaram e delas fugiste.
- Cala-te ou fala mais baixo. Acordas-me a pequena.
- Pequena? Chamas pequena a uma mulher reles, a uma prostituta?
- Alguma vez já viste a pureza contida no olhar de uma puta? Ouviste-lhe a brandura da voz? A delicadeza dos gestos? O aroma do corpo? Não sabes nada ....
O outro, sem argumentos nem resposta calou-se por alguns instantes. Sentou-se e, de cabeça baixa entre as mãos, pensou na melhor forma de convencer aquele homem de que suas atitudes estavam erradas. Pensou e repensou e, com palavras mais serenas, voltou ao diálogo:
- Sabes que sou bom e que quero o teu bem , não sabes?
- Bom? Tu? Enganador! Quantas vidas não destruíste? Quanto mal espalhaste por aí? A quantos negaste a felicidade? Diz ...
- Contigo é diferente. Contigo quero ser outro. Quero respeitar-te e que me respeites também. Vai, veste esse teu corpo bonito e nu e vem comigo. Iremos juntos até ao fim de nossos dias ... Vem ...
- Vai tu, bastardo. Estou farto de ti a meu lado. Cansado das tuas boas intenções e do teu domínio.
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí... (*)
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí... (*)
- Acalma-te e deixa-te de poesia, que a vida não é isso. A vida não é um poema.
- A minha é. A minha será como eu quiser que seja. Moldá-la-ei com as minhas próprias mãos. Irei por onde meus pés me levarem. Onde meu coração quiser ir. Deixo, a partir de agora, de obedecer às tuas regras, às tuas imposições, aos teus mandos. O caminho é só meu.
- Egoísta e ingrato. Eu a querer ajudar-te ...
- Desaparece, vai-te embora e não voltes.
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!(*)
O homem dirigiu-se para a porta da rua, abriu-a e, de dedo em riste, ordenou que o outro saísse imediatamente e para sempre. Seria difícil expulsá-lo de sua casa e de seu viver. O outro fincou pé e foi peremptório ao dizer que não o abandonaria. Nunca. Ante tanta insistência em ficar, o homem enraiveceu-se e, à força, tentou tirá-lo dali. O outro resistiu e, usando toda a sua robustez, agrediu fisicamente o homem, que revidou. Ambos caíram e lutaram brava e silenciosamente. Feridos, suados e exaustos levantaram-se e olharam-se, fixamente, nos olhos. Olhar de despedida. Olhar último. Numa desatenção do outro, o homem avança e empurra-o, com violência, contra a parede. Ouve-se um som cavo. O outro cai, inerte, desprendendo-se dele um cheiro forte a sangue e morte.
Muito enfraquecido o homem ainda consegue arrastar o corpo do outro para fora. Quem quiser que o leve, que o tire dali ...
Fecha a porta atrás de si e por ela deixa-se escorregar aliviado por, a partir daquele momento, saber-se dono das suas próprias escolhas e indecisões.
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí! (*)
Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí! (*)
Seu Destino estava morto.
(*) Excertos do poema Cântico Negro, de José Régio, in Poesia I- Obra Completa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001
Publicado também na Fábrica de Letras - Tema de maio2012 - Destino

Ainda agora quando o rumo que sigo desagua numa bifurcação me viro para Régio,
ResponderExcluirgostei muito,
cumprimentos,
JD
Guida,
ResponderExcluirO texto é teu?
Grande texto!
Posso sugerir uma coisa?
Coloca o teu nome por extenso.
Assina sempre o que fizeres!
Mostra bem o teu nome para que não haja dúvidas.
Gostei!