(Pintura de Manuel Amado)
O apartamento
Passava amiúde por aquela rua, a caminho do Conservatório. Muitas vezes sentava-se no café da esquina, de onde observava o prédio, na calçada em frente: a sua entrada, de porta alta de ferro e vidro e, lá em cima, precisamente no quarto andar, as duas janelas do apartamento, com as sempre corridas e empoeiradas persianas, como se estivesse desabitado. Muitas também tinham sido as vezes em que se aproximara da porta do edifício, pronta para entrar e tentar obter informações sobre aquele apartamento. Em todas as vezes desistira. Se havia alguma coisa que a impelia para a frente havia também alguma coisa inexplicável que a fazia recuar. Naquela tarde, do café, ficou ainda mais atenta aos que entravam e saíam do prédio. Um casal de velhos saiu, o carteiro entrou e saiu rapidamente, uma jovem mulher com uma criança ao colo entrou e fechou a porta atrás de si que momentos depois uma outra mulher abriu de par em par. Trazia uma escada e um balde e imediatamente começou a limpar os vidros.
Havia chegado a hora. O momento certo. Iria até lá e faria o que há tanto tempo queria ter feito. Atravessou a rua e dirigiu-se ao prédio. Cumprimentou a mulher que, prontamente, desceu da escada para atendê-la. Era uma mulher roliça, de rosto jovem e simpático e olhar ladino que a informou de que realmente ela era a zeladora do prédio e que, apesar de não trabalhar lá há muito tempo, sabia de tudo o que lá acontecia diariamente. Percebeu, com estas primeiras palavras, que era mulher faladeira e que gostava de pormenores. É este um prédio com bom ambiente, sem confusões e gosto muito de aqui estar. Ah! Sou a Belmira, em que posso ajudá-la?
- Sim, dona Belmira, o apartamento 4º Esquerdo está habitado? - perguntou-lhe.
- O 4º Esquerdo, é isso que quer saber?
- Sim, esse mesmo ...
- Está fechado e vazio há anos. Não o conseguem alugar e muito menos vender. Penso até que os donos já desistiram do negócio e mantêm-no assim. E tanta gente sem ter onde morar ....
E, ao fazer este comentário, com nítido desagrado começou a recolher os apetrechos de limpeza e fez menção de retirar-se.
- Espere, dona Belmira, eu estou interessada e quero visitá-lo agora. Tem a chave?
- A chave tenho mas já vou avisando que ele está com muito mau aspecto e nem água e luz tem. Vamos lá, entre, que vou buscar a chave ...
Entraram as duas e, enquanto Belmira foi buscar as chaves, ela ficou naquele átrio que tão familiar lhe era. Pouca coisa estava mudada. Até o jarrão com as plantas, parecia o mesmo. O tapete era diferente e tinha aspecto de novo.
Belmira, sorridente, veio com um molho de chaves na mão e entregou-lhas ao mesmo tempo que lhe abria a porta do elevador.
- Esta é a da frente. São duas voltas. Tem mesmo a certeza de que quer subir?
- Espero por este momento há anos ...
- Não gostaria de acompanhá-la. Quando lá vou demoro-me pouco mas se quiser ... é como lhe disse, o apartamento está vazio e abandonado ...
- Obrigada, prefiro mesmo ir sozinha.
Pressionou o algarismo 4, no painel do elevador e sentiu-lhe o movimento ascendente. Ainda ouviu a voz de Belmira que lhe gritou: Espero-a aqui embaixo.
O elevador era o mesmo. O mesmo revestimento de madeira escura e envernizada e o mesmo espelho, impecavelmente limpo, de moldura dourada. Nele se olhou. O mesmo espelho. Só ela mudara.
Duas voltas, dissera-lhe Belmira. Deu a primeira e hesitou. Não, não desistiria. Girou a chave na fechadura para a segunda volta e a porta abriu-se. O cheiro a bafio era intenso e o apartamento estava escuro. Fechou a porta atrás de si e, por momentos, ficou estática, no hall. Sentiu sobre si os olhos do tempo e a voracidade do passado. Nunca dele, em tantos anos, estivera tão perto. Não sentiu medo. Foi até às janelas, subiu-lhes as persianas e abriu-lhes as vidraças. Observou a rua. Do outro lado, lá estava o café. Belmira não lhe mentira. O apartamento estava completamente vazio e empoeirado. Conhecia-o tão bem. Nas paredes nuas ainda havia as marcas deixadas pelos quadros. O da entrada, uma natureza morta. Numa outra parede ficava o das ceifeiras e ainda numa outra o das bailarinas em descanso. Na parede, ao fundo, sobre o piano, o retrato de sua bisavó, Madalena Augusta, que não conhecera. Era um belo retrato de uma bela e jovem mulher. Dos quadros e do piano não se desfizera e naquele instante prometeu a si mesma que voltariam eles aos seus respectivos lugares. Foi aos quartos. Todos vazios. No quarto que fora o seu, com letras quase apagadas e infantis, o If, de Kipling, que, aos treze anos, transcrevera na parede, ainda lá estava:
Releu-o de ponta a ponta e sentiu saudade de quem fora ela com apenas treze anos. Chorou.
Fechou as janelas e a porta e desceu. Olhou-se novamente no espelho do elevador e viu-se diferente daquela que há minutos atrás se olhara nesse mesmo espelho. Achou-se mais bonita, apesar das lágrimas ainda nos olhos.
Lá embaixo Belmira aguardava-a, e perguntou-lhe:
- E então, gostou do apartamento? Está em muito mau estado de conservação, não está?
- Está, mas assim mesmo gosto muito dele e vou comprá-lo. Pode dar-me o contacto dos donos?
- Claro que posso e darei, mas ... a senhora esteve a chorar?
- Tenho chorado muito nesta vida ... e com a poeira que está naquele apartamento ...
Belmira sorriu. Era inteligente e entendeu.
- Vou já buscar o cartão da Companhia, dos donos do apartamento, mas diga-me, quer mesmo comprá-lo?
- Vou comprá-lo, custe o que custar.
- Com tantos imóveis modernos por aí à venda e logo este? - E continuou Belmira:
- Gostei da senhora e como lhe disse sei de tudo o que por aqui se passa e o que aconteceu no passado. Nesse apartamento moravam mãe e filha. A neta, que era artista, vivia no estrangeiro. Certa noite, como o cheiro de gás era muito forte, os Bombeiros foram chamados. Encontraram ambas mortas. O pior de tudo, minha senhora, não foi isso. Dizem que a filha quis suicidar-se mas para não causar tamanho sofrimento a sua mãe, já velhinha, deixou o gás aberto para que morressem as duas ... ainda assim quer esse apartamento? Procure outro que esse tem uma maldição. Veja, depois disso ninguém mais o quis e acho que nem de graça o querem. E vem a senhora .... só achei que devia avisar ... a senhora está a chorar?
- Dona Belmira, tenho chorado muito, como estou a chorar agora. Eu sou a neta. Eu era pianista, famosa. Vivia pelo mundo, dando concertos. Eu nasci e cresci naquele apartamento. À época, minha mãe estava muito feliz, não só pelo meu sucesso como também encontrara um novo amor muitos anos depois de ter sido desprezada pelo meu pai. Tudo o que aconteceu foi um terrível acidente que eu poderia ter evitado ...
Belmira foi buscar o cartão com os contactos dos proprietários.
Despediram-se.
Comprou o apartamento. Quase sempre, de regresso a casa, depois das aulas no Conservatório, passava por lá. Encontrava-se, agora, pintado e limpo. Os quadros haviam voltado aos seus respectivos lugares. No meio da ampla sala, sozinho, o piano, onde se sentava e tocava. O resto continuava vazio mas cheio de muita música e de muitas e boas recordações. Vez por outra enfeitava-o com delicadas flores do campo...
Havia chegado a hora. O momento certo. Iria até lá e faria o que há tanto tempo queria ter feito. Atravessou a rua e dirigiu-se ao prédio. Cumprimentou a mulher que, prontamente, desceu da escada para atendê-la. Era uma mulher roliça, de rosto jovem e simpático e olhar ladino que a informou de que realmente ela era a zeladora do prédio e que, apesar de não trabalhar lá há muito tempo, sabia de tudo o que lá acontecia diariamente. Percebeu, com estas primeiras palavras, que era mulher faladeira e que gostava de pormenores. É este um prédio com bom ambiente, sem confusões e gosto muito de aqui estar. Ah! Sou a Belmira, em que posso ajudá-la?
- Sim, dona Belmira, o apartamento 4º Esquerdo está habitado? - perguntou-lhe.
- O 4º Esquerdo, é isso que quer saber?
- Sim, esse mesmo ...
- Está fechado e vazio há anos. Não o conseguem alugar e muito menos vender. Penso até que os donos já desistiram do negócio e mantêm-no assim. E tanta gente sem ter onde morar ....
E, ao fazer este comentário, com nítido desagrado começou a recolher os apetrechos de limpeza e fez menção de retirar-se.
- Espere, dona Belmira, eu estou interessada e quero visitá-lo agora. Tem a chave?
- A chave tenho mas já vou avisando que ele está com muito mau aspecto e nem água e luz tem. Vamos lá, entre, que vou buscar a chave ...
Entraram as duas e, enquanto Belmira foi buscar as chaves, ela ficou naquele átrio que tão familiar lhe era. Pouca coisa estava mudada. Até o jarrão com as plantas, parecia o mesmo. O tapete era diferente e tinha aspecto de novo.
Belmira, sorridente, veio com um molho de chaves na mão e entregou-lhas ao mesmo tempo que lhe abria a porta do elevador.
- Esta é a da frente. São duas voltas. Tem mesmo a certeza de que quer subir?
- Espero por este momento há anos ...
- Não gostaria de acompanhá-la. Quando lá vou demoro-me pouco mas se quiser ... é como lhe disse, o apartamento está vazio e abandonado ...
- Obrigada, prefiro mesmo ir sozinha.
Pressionou o algarismo 4, no painel do elevador e sentiu-lhe o movimento ascendente. Ainda ouviu a voz de Belmira que lhe gritou: Espero-a aqui embaixo.
O elevador era o mesmo. O mesmo revestimento de madeira escura e envernizada e o mesmo espelho, impecavelmente limpo, de moldura dourada. Nele se olhou. O mesmo espelho. Só ela mudara.
Duas voltas, dissera-lhe Belmira. Deu a primeira e hesitou. Não, não desistiria. Girou a chave na fechadura para a segunda volta e a porta abriu-se. O cheiro a bafio era intenso e o apartamento estava escuro. Fechou a porta atrás de si e, por momentos, ficou estática, no hall. Sentiu sobre si os olhos do tempo e a voracidade do passado. Nunca dele, em tantos anos, estivera tão perto. Não sentiu medo. Foi até às janelas, subiu-lhes as persianas e abriu-lhes as vidraças. Observou a rua. Do outro lado, lá estava o café. Belmira não lhe mentira. O apartamento estava completamente vazio e empoeirado. Conhecia-o tão bem. Nas paredes nuas ainda havia as marcas deixadas pelos quadros. O da entrada, uma natureza morta. Numa outra parede ficava o das ceifeiras e ainda numa outra o das bailarinas em descanso. Na parede, ao fundo, sobre o piano, o retrato de sua bisavó, Madalena Augusta, que não conhecera. Era um belo retrato de uma bela e jovem mulher. Dos quadros e do piano não se desfizera e naquele instante prometeu a si mesma que voltariam eles aos seus respectivos lugares. Foi aos quartos. Todos vazios. No quarto que fora o seu, com letras quase apagadas e infantis, o If, de Kipling, que, aos treze anos, transcrevera na parede, ainda lá estava:
(...)
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
(...)
Fechou as janelas e a porta e desceu. Olhou-se novamente no espelho do elevador e viu-se diferente daquela que há minutos atrás se olhara nesse mesmo espelho. Achou-se mais bonita, apesar das lágrimas ainda nos olhos.
Lá embaixo Belmira aguardava-a, e perguntou-lhe:
- E então, gostou do apartamento? Está em muito mau estado de conservação, não está?
- Está, mas assim mesmo gosto muito dele e vou comprá-lo. Pode dar-me o contacto dos donos?
- Claro que posso e darei, mas ... a senhora esteve a chorar?
- Tenho chorado muito nesta vida ... e com a poeira que está naquele apartamento ...
Belmira sorriu. Era inteligente e entendeu.
- Vou já buscar o cartão da Companhia, dos donos do apartamento, mas diga-me, quer mesmo comprá-lo?
- Vou comprá-lo, custe o que custar.
- Com tantos imóveis modernos por aí à venda e logo este? - E continuou Belmira:
- Gostei da senhora e como lhe disse sei de tudo o que por aqui se passa e o que aconteceu no passado. Nesse apartamento moravam mãe e filha. A neta, que era artista, vivia no estrangeiro. Certa noite, como o cheiro de gás era muito forte, os Bombeiros foram chamados. Encontraram ambas mortas. O pior de tudo, minha senhora, não foi isso. Dizem que a filha quis suicidar-se mas para não causar tamanho sofrimento a sua mãe, já velhinha, deixou o gás aberto para que morressem as duas ... ainda assim quer esse apartamento? Procure outro que esse tem uma maldição. Veja, depois disso ninguém mais o quis e acho que nem de graça o querem. E vem a senhora .... só achei que devia avisar ... a senhora está a chorar?
- Dona Belmira, tenho chorado muito, como estou a chorar agora. Eu sou a neta. Eu era pianista, famosa. Vivia pelo mundo, dando concertos. Eu nasci e cresci naquele apartamento. À época, minha mãe estava muito feliz, não só pelo meu sucesso como também encontrara um novo amor muitos anos depois de ter sido desprezada pelo meu pai. Tudo o que aconteceu foi um terrível acidente que eu poderia ter evitado ...
Belmira foi buscar o cartão com os contactos dos proprietários.
Despediram-se.
Comprou o apartamento. Quase sempre, de regresso a casa, depois das aulas no Conservatório, passava por lá. Encontrava-se, agora, pintado e limpo. Os quadros haviam voltado aos seus respectivos lugares. No meio da ampla sala, sozinho, o piano, onde se sentava e tocava. O resto continuava vazio mas cheio de muita música e de muitas e boas recordações. Vez por outra enfeitava-o com delicadas flores do campo...
(17junho2010)
(Também nesta Fábrica)

GB,
ResponderExcluirnarrativa delicada,
cativante;
a história passou-se diante dos meus
olhos.
E o vazio permaneceu...
Beijos.
Ricardo